sexta-feira, 21 de julho de 2017

Todos os sonhos do mundo


Informação editorial sobre um livro do Desidério Murcho:


"Há mais coisas nos céus e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia", declara Hamlet na peça de Shakespeare. Contudo, quando se aproxima o Verão português, é mais justo dizer que há mais filosofia debaixo do Sol do que sonham os nossos veraneantes. É uma ironia subtil que a imprensa cultural portuguesa reaja ao Verão armada de policiais, quando a filosofia nasceu há 2500 anos num país cujo clima estival é muito semelhante ao nosso: a Grécia. "Filosofia" e "Verão" não rimam, dizem-nos. Contudo, parecem não apenas rimar como ser congéneres.

A filosofia não é senão o estudo de problemas que podemos caracterizar como "conceptuais". A filosofia não é sociologia de café, nem psicologia especulativa, nem poesia em prosa. A filosofia ocupa-se de problemas para os quais não há métodos formais ou científicos de solução. Problemas como a natureza da existência e da verdade, do bem moral e do conhecimento; e problemas mais concretos como a eutanásia ou o aborto, os direitos dos animais ou a natureza da arte.

O coração da filosofia é a argumentação, e por isso o conhecimento da lógica, formal e informal, é uma condição sem a qual não é possível estudar filosofia. Não basta proferir um pensamento filosófico para ele poder ser aceite como moeda legítima; é preciso que esse pensamento resista ao nosso melhor olhar crítico. Que razões há em seu favor? E que razões há contra ele?

Tomemos um exemplo: a ideia muito popular de que "tudo é relativo". A filosofia liberta-nos do dogmatismo que consiste em repetir sem pensar que tudo é relativo só porque está na moda pensar que tudo é relativo. A filosofia permite-nos dar um passo atrás e olhar criticamente para os nossos preconceitos culturais. Que razões temos para pensar que tudo é relativo? E são essas razões também elas relativas? Mas nesse caso tanto podemos aceitá-las como não as aceitar e portanto a ideia de que tudo é relativo não consegue desalojar a ideia contrária — que é a ideia de que algumas coisas não são relativas, e não a ideia plausivelmente falsa de que nada é relativo. Argumento e contra-argumento, exemplo e contra-exemplo — é este o coração da filosofia, que nos devolve o gosto pelo pensamento sem peias, pela tentativa inelutável de resolver problemas, melhorar teorias, encontrar argumentos. O que se pode perfeitamente fazer à beira-mar, conversando com outro ser humano. Ao Sol.

O julgamento do macaco


Scopes Monkey Trial (Imagem obtida no google)

O dia 21 de Julho é uma marca histórica para os defensores do papel da ciência na educação e, em particular, da biologia evolutiva. Hoje celebra-se uma das datas associadas ao “Scopes Trial” ou, como é vulgarmente conhecido, o Scopes Monkey Trial (O Julgamento do Macaco; 1925). John Scopes, então professor de biologia de secundário em Dayton, desafia a lei estatal ao ensinar evolução aos seus estudantes. Acusado, apresentou-se em tribunal e assim se fez história. O julgamento do macaco atraiu os destaques e machetes Estadunidenses para pequena cidade de Dayton em Tennessee, lançando a discussão do papel da ciência no ensino e questionando o fundamentalismo e literalismo bíblico.

John Scopes havia sido avisado. O “Butler Act” havia entrado em vigor no estado do Tennessee e era claro: professores das escolas públicas do estado não poderiam negar a origem bíblica da espécie humana. Ensinar evolução biológica era ilegal pois a doutrina creacionista detinha a exclusividade curricular. Deus fizera homens à sua imagem e o universo fora criado em 7 dias, ponto. Sob aviso que Scopes ensinaria evolução biológica aos seus alunos, os inspectores deslocaram-se à sala de aula e esperaram que o professor ensinasse a sua lição. De forma engendrada e num movimento contra a lei, Scopes dá o corpo às balas e é acusado de ensinar evolução e condenado a tribunal.

Várias personalidades deslocaram-se à pequena cidade de Dayton e o evento foi noticiado por todo o país. Do lado da doutrina religiosa alinhava William Jennings Bryan, candidato (derrotado) por três vezes à presidência dos Estados Unidos pelo partido democrata. O seu oponente, advogado de defesa de Scopes, Clarence Darrow era um reconhecido advogado nacional. Darrow havia preparado o seu caso e voara professores e cientistas para testemunhar. Destes, apenas um zoólogo foi reconhecido como testemunha válida, colocando em cheque a estratégia planeada. Então, de forma ousada, Clarence Darrow convoca o seu próprio adversário como testemunha do seu caso, questionando-o acerca das suas crenças e do conhecimento bíblico. Darrow questiona Bryan acerca do literalismo bíblico de Adão, Eva e Cain, entre outros, tentando ressalvar as diferenças entre crença, e conhecimento.

Dia 21 de Julho marca o dia do veredicto do julgamento. Scopes foi declarado culpado e a pagar 100 dólares americanos (aproximadamente 1400 dólares ajustados à inflação actual) por infrigir a lei. Mas o impacto engendrado pela American Civil Liberties Union havia sido feito: discutiu-se o papel da ciência e da religião na educação, questionou-se o fundamentalismo e doutrinas religiosas e questionou-se a legitimidade bíblica na imposição e estabelecimento de  leis.


Hoje a pequena cidade de Dayton celebra e vive em torno do “Julgamento do macaco” e relembra-nos do papel da ciência na educação. Pessoas de diversas partes do mundo juntam-se em Dayton para palestras organizadas pela universidade de Tennessee e para um festival de verão. Existe uma cervejaria associada que vende a Evolution IPA. Para os mais interessados, encontrarão um filme acerca do julgamento: Inherit the Wind (o vento será a tua lembrança).

quinta-feira, 20 de julho de 2017

QUE É FEITO DO “PERFIL DO ALUNO”?


Meu artigo convidado no "Observador" de hoje:

Em 13 de Março passado terminou a discussão pública, suscitada pelo Ministério da Educação, de um documento com o pomposo título “Perfil do Aluno para o Século XXI”. Escrevi sobre ele uma crónica na Público (“O novo PREC”), na qual chamava a atenção para o perigo de mais uma reforma educativa, que era, ao fim e ao cabo, o que estava a ser congeminado sob a égide do tal documento. Defendi que deviam acabar as reformas educativas sempre que o ministro mudava. Alunos, professores e escolas precisam acima de tudo de estabilidade.

Uma sólida preparação de base nas disciplinas em que o saber humano está desde há séculos distribuído, como o Português, a Matemática, a História ou a Física, era o que eu esperaria para os alunos no final do 12.º ano, que desejavelmente iriam seguir para estudos superiores. Ora o dito “Perfil” não reconhece a relevância dos saberes disciplinares, pretendendo substituí-los por “competências”, definidas de forma vaga como “combinações complexas de conhecimentos, capacidades e atitudes” (p. 12). Temendo que os leitores não entendam, o documento ilustra as “competências” com um boneco a cores, vindo da OCDE, que faz lembrar uma trança. A palavra “competências” está omnipresente, aparecendo 54 vezes ao longo das 14 páginas do texto. As competências preferidas são as “competências-chave”, que são dez como no Decálogo.

O “Perfil” repete uma mão cheia de lugares comuns, alguns importados da OCDE e outros nem isso. O que há de novo, ou sequer de substantivo, em frases nada claras como, por exemplo, esta: “A educação permite fazer conexões entre o passado e o futuro, entre o indivíduo e a sociedade, entre o desenvolvimento de competências e a formação de identidades” (p. 7)? Ou estoutra: “a flexibilidade é instrumental para se dar a oportunidade a cada um de atingir o perfil proposto, de forma coerente, garantindo a todos o acesso às aprendizagens” (p. 8)? Entre os chavões recorrentes estão, além das “competências” e do “perfil”, o “desenvolvimento”/”desenvolver” (40 vezes), a “consciência”/”consciente” (17 vezes), a “sustentabilidade”/”sustentável” (12 vezes) e a “criatividade”/“criativo” (12 vezes). Em contraste, a palavra “exigência” só aparece três vezes enquanto a palavra “disciplinas” surge uma única vez.

Mas o documento não se limita a repetir ideias feitas. Propõe-se mudar o ensino. O Conselho Nacional da Educação salientou que o “Perfil” implicava uma mudança curricular. O que se pretende fazer, embora de forma encapotada, é reorganizar o currículo, isto é, mudar os conteúdos e práticas lectivas. Não é por acaso que a “aprendizagem” (13 vezes) domina o “ensino” (5 vezes). E também não é por acaso que a “tecnologia” (20 vezes) domina a “ciência” (11 vezes). O “Perfil” quer “organizar o ensino prevendo a experimentação de técnicas, instrumentos e formas de trabalho diversificados, promovendo intencionalmente, na sala de aula ou fora dela, actividades de observação, questionamento da realidade e integração de saberes” (p. 18). Eu tenho pena dos alunos que, se o documento vinga, vão ter de experimentar “técnicas, instrumentos e formas de trabalho”. E tenho também pena dos professores que, mesmo estando seguros de técnicas que praticaram ao longo da vida e comprovadamente funcionam, como o “ensino directo”, vão ter de experimentar o que não funciona bem, pelo menos de forma generalizada, como “projectos”.

Para concretizar o novo modelo educativo o Ministério criou um grupo de trabalho multidisciplinar (do qual excluiu a Sociedade Portuguesa de Matemática, que acaba de ganhar o Prémio Gulbenkian Conhecimento, pela promoção do sucesso escolar), solicitando-lhe que reduzisse o currículo ao essencial do essencial. Chama-se “emagrecimento curricular”. A ideia não é “encolher os miúdos”, mas sim encolher o que os miúdos aprendem.


Qual é o ponto da situação? Temendo um alvoroço nas escolas por altura das autárquicas, o primeiro-ministro mandou reduzir a grandiloquente reforma a um ensaio controlado: a mudança deveria ser experimentada num grupo de escolas que se voluntariariam para o efeito. Esteve bem António Costa, ao limitar os danos. Mas o novo ano lectivo está à porta e desconhece-se a lista das escolas-piloto, o que vão ensinar e como vão ensinar. Sabe-se apenas que serão criadas duas novas disciplinas (“Cidadania e Desenvolvimento” e “Tecnologias da Comunicação e Informação”) e que as escolas poderão gerir até 25% da carga horária. Não existe ainda o “Perfil” revisto de acordo com os pareceres recebidos nem existem as conclusões do grupo do “emagrecimento curricular”. O ministério da Educação queria alterar a educação a seu bel-prazer, mas parece que o princípio da realidade se impôs ao princípio do prazer. 

NOVA "ATLANTIS"


A revista "Atlantís" acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Atlantís - review
v. 16 (2017)

Sumário

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[Recensão a] PINHEIRO, P.: Aristóteles. Poética. Edição bilíngue. Tradução, introdução e notas (São Paulo, Editora 34, 2015)

Irley Fernandes Franco

[Recensão a] GARCÍA VIVAS, G.: Octavia contra Cleopatra. El papel de la mujer en la propaganda política del Triunvirato (44-30 a.C.) (Madrid, Liceus Ediciones, 2013).
João Paulo Valério

[Recensão a] LAES, C. & STRUBBE, J.: Youth in the Roman Empire. The Young and the Restless Years? (Cambridge, University Press, 2014).
Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] VIEIRA, C. et alii: Platão. Crátilo, ou sobre a correcção dos nomes. Texto bilíngue grego-português, tradução de Celso de Oliveira Vieira, apresentação de Miriam Campolina, introdução de Marcelo P. Marques (São Paulo, Paulus, 2014).
José Trindade Santos

[Recensão a] FINGLASS, P.J. & KELLY, A. (eds.): Stesichorus in Context (Cambridge, University Press, 2015).
Sofia Gil Carvalho

[Recensão a] GARCÍA GUAL, C.: La venganza de Alcmeón. Un mito olvidado (Madrid, Fondo de Cultura Económica, 2014).
Marta González González

[Recensão a] ROSE, Ch. B.: The Archaeology of Greek and Roman Troy (New York, Cambridge University Press, 2014).
Renata Cardoso de Sousa

[Recensão a] CALABI, F.: Fílon de Alexandria (Filone di Alessandria). Tradução de José Bortolini (São Paulo, Paulus, 2014).
Rodrigo Pinto de Brito

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Atlantís

PARABÉNS SPM!

A Sociedade Portuguesa de Matemática - SPM recebe na quinta-feira o Prémio Gulbenkian Conhecimento, no tema "Promoção do Sucesso Escolar", por causa do seu prolongado e  notável trabalho nas Olimpíadas de Matemática. Parabéns Jorge Buescu, Presidente da SPM, em nome de todos os matemáticos que têm colaborado nessa iniciativa.

Quem fica mal com este prémio é a Secretaria de Estado da Educação que, inexplicável e teimosamente, tem recusado a participação da SPM na revisão curricular que está a empreender.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A MORDAÇA NOS COMANDANTES DE BOMBEIROS


A proibição de os comandantes de bombeiros operacionais distritais poderem falar aos jornalistas é decerto um atentado à liberdade de informação a que temos direito mas, acima de tudo, um atentado à segurança: pode  acontecer que um desses comandantes tenha de comunicar um alarme em directo na televisão, um aviso de prevenção, ou um pedido de evacuação. Agora tudo tem de ser retransmitido (será via SIRESP?) para Carnaxide, para o Comando Nacional da Protecção Civil, e de lá passar ao país, passadas algumas horas. Pobre país, que continua mais centralizado do que nunca. Dantes era o Terreiro do Paço, agora com a timorata descentralização, é o Centro de Comando de Carnaxide!

FÍSICA DE COIMBRA SEM DESEMPREGO

A informação vale o que vale, mas a notícia deve ser espalhada para os actuais candidatos so curso de Física. O curso de Física da Universidade de Coimbra, onde sou professor (ensinei no semestre passado Mecânica Quântica II, História da Física e Comunicação Científica eTécnica) é um dos 16 cursos do país sem desemprego...Não é só medicina...

http://observador.pt/2017/07/19/cursos-de-medicina-nao-sao-os-unicos-com-0-de-desemprego-conheca-os-16-cursos-que-garantem-pleno-emprego/

A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, O FUTURO DO EMPREGO E A EDUCAÇÃO

Meu artigo no mais recente número dos Cadernos de Economia, dedicado ao futuro do trabalho:

A expressão “Indústria 4.0” ou “Quarta Revolução Industrial” é cada vez mais recorrente. O conceito, bastante recente, pretende designar a indústria do futuro, embora há quem diga que essa revolução já começou. O que é a “Indústria 4.0”? Se a Primeira Revolução Industrial, iniciada no final do século XVIII com o desenvolvimento da máquina a vapor, consistiu no aproveitamento da força motriz da água aquecida para libertar o homem e os animais dos trabalhos mais pesados, a Segunda Revolução Industrial, que surgiu já a meio do século XIX, consistiu na mudança das máquinas a vapor para máquinas eléctricas, graças aos avanços feitos no electromagnetismo. Foi nessa altura que foram construídos os dínamos e se tornou possível a electrificação. No final da Segunda Guerra Mundial, surgiu a Terceira Revolução Industrial com o desenvolvimento da electrónica, tornada possível pela invenção do transístor. De então para cá, o avanço do digital tem sido em crescendo, com os primeiros computadores pessoais na década de 80 e a World Wide Web na década de 90 no século passado. Na sequência, a Quarta Revolução Industrial consistirá não apenas no uso dos robôs, máquinas electrónicas que hoje são comuns nas instalações fábris e ideais para a realização de tarefas repetidas, mas, também, na combinação do seu trabalho com uma série de tecnologias já estabelecidas, como as redes de comunicação rápida (que ligam hoje os computadores em todo o mundo), ou em vias de estabelecimento, como a “Internet das Coisas” (uma rede de sensores ubíquos), a cloud ou “computação em nuvem” (isto é, o cálculo conjunto de vários computadores situados algures), a impressão tridimensional (que permite criar rapidamente objectos à medida), os algoritmos de big data (que permitem extrair conclusões de uma multidão de números), a realidade virtual ou aumentada (que permite criar mundos simulados assaz realistas), e  inteligência artificial (o projecto, com alguma coisa de utópico, de imitação do cérebro humano por uma máquina).Embora ninguém saiba ainda muito bem o que virá a ser a “Indústria 4.0”, pois há muitos processos diferentes a ser testados, o termo refere-se aos tipos de manufactura cada vez mais inteligente que estão a aparecer com a disponibilidade de computadores e redes de computação cada vez mais evoluídas.

Uma ilustração das novas capacidades oferecidas pelo digital foi demonstrado na maior feira da indústria da Europa, realizada em Abril passado em Hannover, na Alemanha: um robô jogava ténis de mesa com qualquer pessoa. Foi aliás no quadro da indústria alemã, onde a robotização é hoje muito visível (basta olhar para as modernas linhas de montagem de automóveis das marcas mais conhecidas), que surgiu o termo “Indústria 4.0”. Em 2012 foi criado pelo governo federal um grupo de trabalho a quem foi pedido um exercício de prospectiva sobre o futuro da indústria. Os especialistas concluíram que os processos de manufacturação irão funcionar através de sistemas complexos de máquinas, instalações, produtos e logística. Os desafios são grandes e múltiplos. Por exemplo: que papel fica para os seres humanos, em particular quais serão as consequências para os empregos, quais serão os perfis profissionais previsíveis e quais serão as novas necessidades de formação?

É sempre difícil fazer previsões. Einstein, cuja família aproveitou no fim do século XIX as oportunidades da segunda vaga da Revolução Industrial, afirmou: “Nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar.” De facto, ele que foi um dos pioneiros da teoria quântica não anteviu as tremendas consequências que ela traria para a sociedade com o aparecimento dos transístores. Mas parece claro, se olharmos para as revoluções industriais anteriores, que haverá mudanças substanciais no trabalho humano. É um facto que a automação veio eliminar nos anos mais recentes numerosos postos de trabalho, tanto nas fábricas como nos serviços (por exemplo, já quase não há portageiros, substituídos por robôs, assim como há cada vez menos funcionários bancáerios substituídos pelos próprios clientes, que usam o homebanking) e tudo indica que essa tendência vai continuar. Segundo um relatório do Forum Económico Mundial, nos próximos dez anos haverá menos cinco milhões de postos de trabalho nos 15 países mais industrializados do mundo. Alguns empregos que hoje existem deixarão  simplesmente de existir, enquanto serão criados novos empregos, cujo número não compensará o dos postos de trabalho perdidos (o valor referido de cinco milhões é um saldo negativo, entre empregos destruídos e criados). A robotização em curso coloca questões sociais muito relevantes, às quais a economia e a política têm de responder. Por exemplo: Será sustentável o sistema de segurança social? Fará sentido taxar robôs? Haverá acréscimo de riqueza suficiente para assegurar para todos um rendimento mínimo garantido? E que farão as pessoas sem trabalho?

Uma vez que as tarefas de rotina são as mais fáceis de robotizar, parece também claro que o papel humano será mais de criação e não tanto de execução. No entanto, como os sistemas serão cada vez mais complexos, a criatividade humana revelar-se-á   cada vez mais necessária. Os mais criativos serão evidentemente os vencedores, o que ao fim e ao cabo não é nada de novo. E, uma vez que a criatividade necessita de terreno sólido para crescer, uma preparação superior será cada vez mais precisa. Também aqui não há nada de novo: a sociedade tem vindo a reconhecer o valor do ensino superior, porque percebe que os empregos menos qualificados são aqueles com maior probabilidade de extinção.

Parece  ainda  claro que, numa sociedade onde a indústria funciona em rede, a escola, seja no nível básico e secundário seja no nível superior, deve preparar para esse funcionamento em rede. O mundo é global e a escola deve ser, em certa medida, também global. Estou em crer que a profissão de professor, que é intermediador das aprendizagens pessoais, não é das que está mais em risco. Nos anos 80 e 90, julgava-se que o ensino futuro fosse todo por computador, mas isso não aconteceu. Quer dizer, o ensino formal continua  a ter por base o contacto humano, embora se tenha de reconhecer que boa parte do ensino informal passa hoje pela Internet. A informação já está e estará cada vez mais acessível em todo o lado e há que saber não apenas recolhê-la, mas sobretudo interpretá-la e, a seguir, tomar as melhores decisões. Tudo isto é e será feito e  em equipa, quer dizer em pequenas redes humanas. Como devem as escolas, os professores, os currículos adaptar-se às novas exigências? Na reflexão sobre o futuro da escola, convém não esquecer o essencial. É preciso acima de tudo assegurar que o mundo permaneça humano, o que quer dizer que a sociedade não deverá nunca ver as tecnologias como um fim mas sim como um meio para uma vida melhor. É preciso, por exemplo, reflectir sobre uma carta aberta subscrita, entre outros, pelo astrofísico Stephen Hawking, pelo empresário Elon Musk e pelo linguista e activista político Noam Chomsky e pelo responsável pela área de inteligência artificial da Google e divulgada em 2015 pelo Future of Life Institute, chamando a atenção para os perigos que os avanços na inteligência artificial podem ter para a própria sobrevivência da humanidade. E, se o robô que hoje joga ténis connosco, começar amanhã a disparar outra coisa que não bolas?


terça-feira, 18 de julho de 2017

O QUE SE PASSOU EM TANCOS?


O roubo de armas em Tancos tem sido o tema favorito dos humoristas. A frase escrita pelo grande humorista Dalai Lima, o grande mestre do humor na concisão, resuma bem a actual situação: "armas desroubadas, chefes desexonerados". O João Quadros também escreveu duas crónicas que dão vontade de rir: Ferro velho em Tancos e Às armas, às armas.

Pouco percebo de assuntos castrenses, mas não percebi a exoneração e a desexoneração dos comandos. E acho completamente despropositadas as afirmações do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas que, passados muitos dias sobre o roubo, veio minimizar o acontecido, dizendo que o material valia pouco e não funcionavam.  Eram só, diz eles,34.000 euros e os lança granadas não disparavam. Os ladrões, portanto, foram enganados. Mas, se houve um roubo, qualquer que ele seja, a um paiol militar importante, esse facto não é já muito grave?  Ou não houve? Não há até agora sinais  do modo como ocorreu o roubo de modo a incriminar alguém? E não há responsáveis pelas falhas de vigilância? Quando é que saberemos a verdade?

METAMORFOSES DE OVÍDIO




Mutatis Mutandis: Os Dramas da Forma


Nos 2000 anos da morte de Ovídio


Metamorfoses é o título de um longo poema de Ovídio (43 a.C. – 17 d.C.) que escapa a qualquer classificação esquemática. Porém, nenhuma obra da Antiguidade exerceu tão grande influência sobre a cultura europeia, nomeadamente sobre a literatura e as artes. Nela se reúnem 250 histórias, cujas personagens se caracterizam por serem objeto das mais incríveis transformações. Os corpos que se transformam em fontes, em pedras, em flores ou em animais representam os dramas da forma.
Muito além das circunstâncias do tempo em que viveu, Ovídio glorifica o indivíduo, a fantasia e o amor, chamando a atenção para a metamorfose permanente do mundo, captada, ao mesmo tempo, como essência e como ilusão. Continuamente presente na tradição literária europeia, este livro inspirou e continua a inspirar intelectuais e artistas de todos os tempos. 
Exposição documental sobre as Metamorfoses de Ovídio nas colecções da Universidade de Coimbra | Parceria Universidade de Coimbra - Fundação Inês de Castro | 9º. Festival das Artes
De 16 a 22 de Julho de 2017 | Das 10h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h00
Biblioteca Geral - Sala de São Pedro
Visita guiada pela Prof. Doutora Margarida Miranda dia 18 às 18h00 - INSCRIÇÃO

OS DIAS DA ESCOLA: ENCONTRO SOBRE EDUCAÇÃO EM TORRES NOVAS


OS DIAS DA ESCOLA
encontro de  professores e educadores do concelho de Torres Novas

educar num tempo digital
as aprendizagens e a avaliação
lançamento do ano letivo

INSCRIÇÕES GRATUITAS ONLINE ATÉ 28 DE JULHO:
https://goo.gl/zUJkC6

Oficinas no dia 4.setembro.2017

7.setembro. 2017 - Sessão plenária

 Teatro Virgínia em Torres Novas

8h30 . Receção de participantes
9h15 . Sessão de abertura

João Costa Secretário de Estado da Educação (aguarda confirmação)
Pedro Ferreira Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas

Apresentação do encontro
José Tomé Centro de Formação A23
Acácio Neto Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves
Paulo Renato Agrupamento de Escolas Gil Paes
Eunice Lopes Escola Profissional de Torres Novas
Luís Silva Município de Torres Novas

10h30 . Educar num tempo digital . Carlos Fiolhais
11h15 . pausa
11h45 . Avaliar porquê e para quê? . Hélder Diniz de Sousa
13h00 . almoço [Praça do Peixe]
15h00 . Lançamento do ano lectivo 2017/2018
Agrupamento de Escolas Gil Paes . Teatro Virgínia
Agrupamento de Escolas Artur Gonçalves . auditório da NERSANT

os oradores

Carlos Fiolhais

Licenciado em Física na Universidade de Coimbra (1978) e doutorado em Física Teórica em Frankfurt/Main, Alemanha (1982). É Professor Catedrático no Departamento de Física
da Universidade de Coimbra, onde fundou e dirige o Centro de Física Computacional e onde já desempenhou diversos cargos de relevância, entre os quais o de Director da Biblioteca
Geral. É autor de vários livros e inúmeros artigos científicos os em revistas internacionais, coordenando diversos projectos de investigação. Entre outras distinções, recebeu o prémio Rómulo de Carvalho e a Ordem Infante D. Henrique. É co-fundador da empresa "Coimbra Genomics", co-responsável pelo blogue "De Rerum Natura" e colaborador regular no Jornal Público. Na Fundação Francisco Manuel dos Santos foi responsável pelos programas de "Educação" e de "Ciência e Inovação”.

Helder Diniz de Sousa

Licenciado em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1980), professor do ensino secundário, com exercício de diversas funções pedagógicas e de assessoria de direção no quadro das funções docentes. Foi co-autor de programas na sua área de formação académica e formador de professores. Entre outras funções, desde 1986 centrou a sua atividade pro ssional na área da avaliação educacional, desempenhando diversas funções de direção nos serviços de avaliação do Ministério da Educação. É Presidente do Conselho Diretivo do IAVE desde 2014, representando Portugal nos consórcios internacionais que coordenam os estudos PISA, TIMSS, PIRLS e ICILS

CONFERÊNCIA SOBRE IGUALDADE DA FUNDAÇÂO FRANCISCO MANUEL DOS SANTOS

Será a 30 de Setembro no Teatro de S. Carlos em Lisboa e as inscrições estão abertas:

Depois dos conflitos sociais e das revoluções que precederam o sufrágio universal, a igualdade perante a lei, os direitos humanos e a ascensão da classe média, neste século XXI o Ocidente é mais desigual do que há 30 anos. A globalização e as tecnologias criaram sociedades com «ganhadores» e «perdedores», uns mais e os outros menos adaptados às rápidas mudanças. Os populismos ganham força e a inquietação põe em dúvida a aspiração de uma sociedade mais justa.
Em que pé está a igualdade? O que pode ser feito para que sejamos mais iguais? Que tipos de igualdade devemos almejar?
No dia 30 de Setembro, a Fundação junta no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, alguns dos maiores especialistas mundiais sobre as desigualdades:
•   Pierre Rosanvallon falará de «igualdades» com a perspectiva de quem estuda a história e as ideias políticas que moldaram a nossa civilização.

•   Branko Milanovic e Richard Baldwin mostrarão de que modo a globalização e as tecnologias estão a aumentar as desigualdades a nível mundial, retirando da pobreza milhões de pessoas nos países em desenvolvimento e diminuindo a oferta de trabalho para as classes baixas e médias nos países desenvolvidos.
Os rendimentos da classe média dos países desenvolvidos são os que menos têm aumentado
•   Gregory Clark - que estudou a persistência de certos apelidos nas elites ocidentais ao longo de séculos - e Philippe van Parijs, o inventor da ideia de um Rendimento Básico Incondicional, vão propor políticas sociais para a redução das desigualdades;

•   A conferência de encerramento ficará a cargo de Ruby Bridges, que em 1960 tornou-se a primeira criança afro-americana inscrita numa escola do sul norte-americano que tinha sido, até aí, frequentada apenas por brancos. Bridges transformou-se num dos maiores símbolos da luta pelos direitos civis e pela educação integrada e igual para todas as crianças.
“Não havia o direito de uma mulher, mãe de filhos, a assustar à porta da escola, mostrando-lhe uma boneca vestida de negro dentro de um caixão. Ainda hoje ela recorda que isso a atemorizou mais, muito mais, do que os insultos que ouvia enquanto caminhava.”
•   No Encontro poderá também ouvir Leonor Beleza e Richard Zimler, num debate sobre identidade e igualdade nas sociedades multiculturais do Ocidente. E verá ainda um vídeo, concebido por Gonçalo M. Tavares, sobre «dez igualdades».                             

Homenagem a José Eduardo Franco


José Eduardo Franco foi homenageado na cerimónia solene de abertura da Universidade de Verão, na Universidade Livre Infantes (Província da Ciudad Real, em Espanha) pelo “trabalho que ao longo de anos tem realizado como investigador em defesa da cultura ibérica em particular e, recentemente, como director e catedrático titular da Cátedra Infante Dom Henrique para os estudos Insulares Atlânticos e a Globalização.” Neste momento prepara as "Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa"

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Campanha de venda de livros

Informação recebida da Gradiva:



Pentateuco de 1487


Informação recebida e Paulo Mendes Pinto:

Reprodução ‘fac-similada’ do Pentateuco impresso em Faro, em 1487

O “Pentateuco”, impresso nas oficinas de Samuel Gacon, em Faro, no ano de 1487, é o mais antigo livro impresso em Portugal. A editora “Sul, Sol e Sal” entendeu evocar esse acontecimento histórico lançando, na passagem dos 530 anos sobre essa data, uma reprodução ‘fac-similada’ do exemplar depositado na British Library.
A publicação resulta da coincidência de vontades e do esforço conjunto daquela editora e do Círculo Teixeira Gomes – Associação pelo Algarve.
A presente edição é acompanhada por um estudo introdutório de Manuel Cadafaz de Matos, da Academia Portuguesa da História, que contextualiza a edição de Faro do “Pentateuco” na história da imprensa incunabular hebraica portuguesa.
Associou-se ao evento a Fundação Portuguesa das Comunicações e o Agrupamento de Escolas Afonso III. 
(Fonte: Jornal do Algarve)

O PENTATEUCO E A EDIÇÃO DE 1487
(por Manuel Cadafaz de Matos)

1- A edição do Talmud e a imprensa em Portugal
teve as suas origens em Faro

Falamos sobre a edição do mais antigo livro impresso (até agora conhecido) no nosso país, ainda em língua hebraica, em 30 de Junho de 1987[1]. Trata-se da obra Tora [Pentateuco], e a sua impressão ficou a dever-se a Samuel Gacon [leia-se Samuel Porteiro] que, na sua oficina tipográfica de Faro editou, no último quartel do século XV, pelo menos, mais dois tratados, ambos com comentários de Rashi[2] – e incorporadas num mesmo volume do Talmud, dito babilónico: Guitin [Tratado do Divórcio] e Shevu’ot [Tratado dos Juramentos] (1492?).
O cólofon daquela edição do Torah dá-nos a data precisa do final da composição da obra: “Acabou-se aqui em Faro, a 9 do mês de Ramuz, no ano Feliz do justo, que gozará o fruto das suas obras! [Isaías, 3, 10, i.e., 247 = 30 de Junho de 1487], por ordem do nobre e alto Dom Samuel Gacon[3]. Que o seu Criador e Redentor o proteja”[4].
O Pentateuco é, efectivamente, o mais antigo livro que se conhece impresso em Portugal. O Sacramental [de 1488?], de Sanchez de Ver­cial[5] – que em 1988 estudámos na Biblioteca do Rio de Janeiro[6] –, bem como o Tratado de Confissom, cuja edição [de 1489] em boa hora foi descoberta e (inicialmente) dada a conhecer através das páginas do Diário de Notícias[7], foram dados ao prelo, como se viu, não muitos meses depois.
Enquanto o Sacramental e o Tratado de Confissom são obras em lín­gua portuguesa, o Pentateuco, produto saído de uma das (porventura pri­meiras) tipografias hebraico-portuguesas implantadas neste recanto da península, é impresso com caracteres hebraicos[8]. Ele materializa – e é testemunho – (d)esse apego judaico à arte tipográfica, designadamente em Portugal. Dá conta do significado da preservação, em documentos escritos, da Lei do Talmud, de forma a que a palavra dos antigos sábios pudesse, ininterruptamente, ser transmitida de pais para filhos ao longo dos tem­pos, de sucessivas gerações.
O único exemplar que hoje se conhece deste Pentateuco (de Faro), encontra-se depositado na British Library, em Londres. É o primeiro grande marco da implantação das artes tipográficas hebraicas no nosso país no século XV.

2- Das primícias da acção tipográfica na Europa
à vigilância censória

Vejamos, assim, como se implanta a Tipografia em Portugal – tarefa em que desempenham incialmente um papel primordial os Judeus – e como daí até à publicação do primeiro incunábulo (em caracteres hebraicos) na cidade de Faro, vai apenas um passo.
As artes tipográficas tornaram-se, logo a partir dos alvores da imprensa no século XV, tanto servidoras como “inimigas” da acção expan­sionista da Igreja. Por um lado, graças aos avanços registados nas artes tipográficas (que com Gutenberg haviam conhecido, entre 1440 e 1450, a descoberta dos caracteres móveis), passaram-se a editar obras de carácter bíblico em profusão. Mas foi também graças a essa mesma imprensa que os inimigos da própria Igreja, os autores hereges por assim dizer, passa­ram também a ser divulgados sem limite.
Essa foi uma das primeiras razões por que, para a Igreja como sólido suporte do poder instituído – importava agir taxativamente nesse sentido. Impunha-se coagir aqueles autores, cujos métodos abusivos e pre­varicadores, postos ao serviço da interpretação dos textos sagrados, punham a própria Igreja (e os seus dogmas) em risco. Era essa a função da censura, instituída no nosso país muito antes da implantação do Tribu­nal do Santo Oficio, e cuja acção já remonta – senão mesmo antes – à terceira década do século XIV, ao final do reinado de D. Dinis[9].
No caso concreto Portugal, situa-se já em 1324 (pelo menos) a primeira manisfestação de defesa da Igreja e do poder instituído contra os vários perigos que os afrontavam ou contra esses ditos hereges. A censura pré­-inquisitorial e a censura inquisitorial, depois, actuam, assim, cumprindo a “piedosa missão” para que foram criadas, salvaguardando os interesses da Igreja, antes de mais, e em sua consequência os interesses (aparentes?) da colectividade.
Pelo que se depreende de abalizados estudos sobre a censura levados a cabo por António Baião ou I. S. Revah, uma das motivações imediatas, para a reorganização da actividade censória fora em meados do século XV aquela descoberta de Gutenberg.
Autores como Henri-Jean Martin, Roger Chartier, José V. de Pina Martins e Artur Anselmo têm-se questionado em França e em Portugal, quer sobre a data efectiva da implantação das primeiras oficinas tipográficas na Europa Central, quer sobre as primeiras que passaram a actuar em Portugal.
Desde os anos cinquenta e sessenta do século XV, principiaram, com efeito, a proliferar as mais variadas oficinas tipográficas por toda a Europa, designadamente na Península Ibérica. E a Igreja, zelosamente militante pela preservação dos dogmas do Cristianismo, não só vigiava com atento rigor – graças à sua apertada máquina censória – a produção dita herética como, mais do que isso, sempre que podia mandava queimar tais obras como os seus próprios autores, em pessoa ou em efigie. E isso passava-se pela via da teatralização religiosa, a encenação do auto-de-fé, incentivando as populações anónimas (iletradas por excelência) a comete­rem contra tais intelectuais o maior somatório de atentados, que culmina­vam na maior parte dos casos com a própria morte.

3- Das primeiras tipografias com caracteres hebraicos em Portugal

Não se torna hoje muito fácil a elaboração de um rigoroso e exaustivo catálogo das obras impressas em Portugal, dado que, certamente, muitas delas não terão chegado até aos séculos mais próximos. É hoje possível, no entanto, estabelecer que as primeiras tipografias criadas neste recanto da Península estiveram associadas a famílias judaicas e laboraram com caracteres (móveis) hebraicos, pelo menos desde 1487.
Um dado porém a não esquecer é que para o funcionamento dessas tipografias de caracteres hebraicos nesse último quartel do século XV se tornava imprescindível a observância de quatro vectores ou vertentes fundamentais:

I- uma técnica de grafismo – vocacionado para a iluminura – e de impressão capaz de responder às necessidades de ilustração dos textos, com frequente alusão aos textos bíblicos;
II- a existência de caracteres hebraicos (diversos conjuntos de carac­teres importados de países onde esse modelo tipográfico estivesse mais avançado);
III- uma mão-de-obra (minimamente) especializada que, tanto num plano de impressão como de conceptualização e realização de gra­fismos, pudesse corresponder aos desejos e interesses dos editores;
IV- a existência de significativos stocks de papel – provenientes das fábricas já existentes em território nacional[10] – em que se pudesse fazer a respectiva impressão.

Detenhamo-nos, assim, em primeiro lugar, sobre essa hipótese, atrás formulada, de uma teoria da importação, e consequente difusão nacional, dos conjuntos de caracteres móveis hebraicos. É por demais sabido, com efeito, que as famílias judaicas que viviam em Portugal no século XV se dedicavam, em particular, ao comércio, transaccionando não apenas den­tro das fronteiras do nosso território, mas com outras firmas sediadas em várias cidades da Europa como Toledo, Gibraltar, Paris, Livorno, Génova, Nápoles, Antuérpia, Bruges, Amesterdão, Roterdão e Hamburgo. Nessas cidades situavam-se então algumas das comunidades judaicas, denotado­ras de uma identidade cultural fortemente enraizada, de que chegou notí­cia até aos nossos dias.
Terá sido nas suas incursões comerciais ao estrangeiro que esses comerciantes judaico-portugueses e espanhóis terão trazido até à Penín­sula, quer alguns conjuntos de caracteres móveis de impressão, quer os métodos de manufactura dos mesmos e, consequentemente, conhecimentos e técnicas acerca da rudimentar arte de impressão.
A introdução dos caracteres tipográficos em Espanha antecedeu, ao que se presume, em cerca de uma década, a verificada no nosso país. Assim, se o Pentateuco (algarvio) acabou de se imprimir em Faro – sob os cuidados de Samuel Gacon – em 30 de Junho de 1487, o marco de lança­mento da primeira obra tipográfica em Espanha nesse tipo de caracteres se deveu a Solomon b. Moses b. Alcabiç Halevi, em Guadalajara, por volta de 1476 (e não em 1482 em que esse mesmo impressor editou, na mesma localidade, os Comentários ao Pentateuco, de David Kimchi).
O dado mais concreto de que hoje se dispõe, a este respeito, é apresen­tado, porém, na Geschichte des Spanishen Frühdruckes in Stammbaümen, de Konrad Haebler, onde se refere que já em 1483 o castelhano Alfonso Fernandez de Córdoba procedia ao fabrico de caracteres móveis hebraicos, porventura utilizados nas oficinas de Hijar e de Guadalajara.

4- Judeus portugueses impressores no nosso país e no exílio

No que respeita às primícias da arte tipográfica com caracteres hebrai­cos, executados por judeus portugueses no exílio ou em Portugal, importa reter, numa primeira análise, os nomes de Moses b. Shem Tob Ibn Habib e de Samuel Gacon. Ambos viverem em Portugal no último quartel do século XV, tomando, as suas vidas, a partir de uma dada altura, rumos diferentes dos da sua família espiritual do Algarve.
Moses Ibn Habib foi um poeta hebreu, filósofo, tradutor e gramático que nasceu no século XV em Lisboa[11], em data que não se torna possível precisar. Este autor terá vivido, ao que refere Posnanski[12], durante algum tempo no Levante. Esteve no sul de Itália, designadamente em Nápoles, vindo a morrer nos começos do século XVI.
Foi precisamente na cidade italiana de Nápoles que circulou em 1484 a sua gramática Perah shoshan, preparada nesse ano e sobre a qual tra­balhámos, há alguns anos, na British Library de Londres, seguindo regis­tos de Amzalak[13]. Esta obra, dividida em sete secções, cada uma divi­dida em vários capítulos, foi iniciada em 23 de Sivan A. M. 5244, no calendário hebraico (16 de Junho de 1484) e terminada em 27 Kislev A. M. 5244 (15 de Dezembro do mesmo ano).
Quanto ao outro judeu português atrás referenciado, Samuel Gacon, ele já se situa, com mais precisão, nos primórdios da arte tipográfica por­tuguesa[14] em território nacional. Samuel Gacon, cuja data de nascimento também não conhecemos, não teve de optar pela via do exílio. Sabe-se, apenas, que no ano de 1487 vivia em Faro. Foi precisamente nessa cidade que, em 30 de Junho desse mesmo ano – três anos depois de Ibn Habib ter feito divulgar em Nápoles a sua gramática – concluiu a edição do Pentateuco, que Pina Martins[15] considera “a primeira obra impressa em Portugal em caracteres hebraicos”[16].

5- Da impressão (em 1487) do Pentateuco

Ao longo dos últimos anos, tem-se tentado estabelecer uma teoria das ligações dos principais núcleos tipográficos espanhóis do último quartel do século XV com outros existentes, quer em Portugal (sobretudo em Faro, Lisboa e Leiria) quer no Norte de África (onde, a partir do século XV, floresceram também importantes comunidades judaicas provenientes de Espanha e do nosso país).
Embora não se possa ainda admitir correcta­mente a sua região de origem, na zona arábico-andaluza, não podemos deixar de lembrar que é sensivelmente neste período da edição do Penta­teuco – ou seja, cinco anos depois, por altura do decreto de expulsão dos judeus de Espanha – que parte para o Norte de África o grande teórico e humanista Yossef Alachkar, dito El-Rkyèse – que depois de 1502 se esta­belece em Tlemecen, onde desenvolve obra intelectual assinalável, no estudo da Bíblia e do Talmud.
Samuel Gacon (em Faro), David Kimchi e Solomon AI-Kabiç (em Gua­dalajara) e Yossef Alachkar (em Tlemecem, no Norte de África), afiguram­-se-nos, assim, peças importantes de um mesmo “puzzle” que importa des­montar, reconstituir a analisar até às suas mais ínfimas partes constituintes.
De Samuel Gacon chegou até aos nossos dias a primeira obra de que há notícia ter sido impressa em Portugal. Trata-se de um trabalho que se nos apresenta em 110 fólios, com composição de 30-32 linhas.

Ilustração – Legenda:
Frontispício do Pentateuco
ficheiro da ilustração: “Pentateuco – 1487 – Frontispício.JPG”

Tendo, no nosso país, sido primeiramente divulgada a sua existência por Proença e Anselmo[17] a notícia da sua existência já havia, no entanto, sido feita, segundo adverte Artur Anselmo, nas Origens da Imprensa em Portugal, por Steinchneider, entre 1852 e 1860.
O Pentateuco (de Faro) cuja realização tipográfica se concluía em 30 de Junho de 1487, foi impresso precisamente um mês depois de ser editada em Itália, nas oficinas de Francesco del Tuppo, a obra Apologia de Picco della Mirandola. Não pode, porém, ainda hoje considerar-se como provada documentalmente a hipótese de António Ribeiro dos Santos de os caracteres tipográficos móveis hebraicos terem inicialmente chegado a Por­tugal provenientes de Itália[18].

6- Dos três núcleos de produção hebraica
quatrocentista portuguesa (Faro, Lisboa e Leiria)

Se o Pentateuco de Faro constitui a primeira obra editada em caracteres hebraicos no nosso país, a edição do Séfer Abudraham, ou seja Novas da Lei ou Comentários sobre o Pentateuco, de Moisés ben Nahman, é, na opinião de Pina Martins, “o primeiro livro impresso na capital portuguesa em caracteres hebraicos”, já objecto de reedição, em fac-simile, no nosso país[19].
Marque ou não essa edição o início de uma venturosa época (porém de não muito longa duração) de intensa actividade dos impressores hebraicos em Portugal, sabemos que ela se expandiu entre nós na década de 1487-97 por diversos outros pontos do país. Assim, e mesmo que em 1489 (pelo testemunho de Pina Martins) ou porventura em 1488 – a confirmar-se a hipótese de Rosemarie Erika Horch em relação ao Sacramental, – já laborassem em Portugal tipografias com caracteres em língua portuguesa como a de Chaves, é facto provado que neste período a tipografia hebraica conhecia, já uma significativa fase de implantação entre nós.
Faro pode hoje, como efeito, orgulhar-se – justificadamente – de ter sido o berço, da primeira Imprensa hebraica portuguesa e, daí, o local de realização da mais antiga obra – em caracteres hebraicos – de que (até agora) há notícia na História da Imprensa no nosso país.
Não restam hoje dúvidas – depois das desenvolvidas pesquisas de Artur Anselmo (e contrariando o que escrevera Joshua Bloch) – que Samuel Gacon e Samuel Porteiro foram uma única e mesma pessoa. Tal não invalida que Offenberg tenha no índice final de Hebrew Incunabula (p. 187) – distinguido Samuel Gacon de Samuel Porteiro, referindo que o segundo imprimiu em Faro até por volta de 1496.
Nessa altura os seus filhos levaram o prelo (ou componentes do mesmo) para Pesaro, em Itália (onde, segundo Anselmo sobreviveram “vestígios de caracteres tipográfi­cos” da sua oficina “na qual só havia tipos quadrados de dois tamanhos, embora as vogais-pontos só apareçam na matriz maior”). Também elemen­tos da mesma família dos Gacon foram descobertos por Joshua Bloch em Constantinopla.
Leiria por sua vez foi testemunha, em 1496, da publicação do Almanach Perpetuum celestius motuus. Foi esta obra escrita pelo judeu e astrólogo Abraão Zacuto, destacada figura na corte de D. Manuel[20].
Importa, pois, que se estabeleça o “rol” de publicações surgidas em cada um dos núcleos tipográficos judaicos portugueses nesse último quar­tel do século XV:

I- Faro
1.1487- Pentateuco (Samuel Gacon)
2.1492(?)- Talmud Babilónico. Comentário de Rashi (Samuel Gacon)[21]
3.1494- Tratado do Divórcio (Samuel Gacon)[22]

II- Lisboa            
1.1489- Novas da Lei ou Comentários ao Pentateuco, de Moisés ben Nahman (Elieser Toledano)[23]
2.1489- Comentário à Ordem das Orações[24], de David Abudarham (Elieser Toledano)
3.1490(?)- Livro de Orações (Elieser Toledano)[25]
4.1490(?)- Caminhos do Mundo, de Josué Levi
4.1.idem- Livro do temor, de Ionah Gerondi
4.2.idem- Segredos da Penitência, de Ionm Tovb (os três trabalhos, reunidos num só volume, da responsabilidade também de Elieser Toledano?)
5.1491- Pentateuco, em versão de Onkelos e com comentário de Rashi (Elieser Toledano)
6.1492- Provérbios de Salomão. Comentário de David Ben Salomão ibn Iaachia (Elieser Toledano)
7.1492- Isaías e Jeremias. Comentário de David Kimchi (Elieser                Toledano)[26]
8.1492(?)- Leis da Matança, de Moisés ben Maimon (Maimónides) (Elieser Toledano?)[27]

III- Leiria [prelo da família Ortas[28]]
1.1492- Provérbios de Salomão. Comentário de Menahem ha-Meiri e Levi ben Gershom (Samuel d’Ortas e filhos)[29]
2.1494- Profetas Primeros. Comentários de Levi ben Gershom e Davi Kimji (Samuel d’Ortas e filhos)[30]
3.1495- Caminhos da Vida, de Jacob ben Asher (Abraão d’Ortas)
4.1496- Almanach perpetuum celestius motuus, de Abraão Zacuto

A estas obras bibliográficas judaico-portuguesas do século XV poder-se-ão acrescentar, no entanto, ainda alguns “fragmentos de outros espécimes” que, segundo A. Anselmo “podem ter sido impressos em Lisboa e Leiria entre 1490 e 1495”. Entre tais trabalhos contar-se-ão, seguramente, alguns já referenciados em 1971 no censo geral de incunábulos hebraicos organizado por Herrmann Mezer.

Ilustração - Legenda:
Trecho do Arco de Triunfo de Maximiliano: brasões dos rei de Maiorca, Sevilha, Sardenha, Córdova, Córsega, Múrcia, Jaen, Algarve, Algeciras, Gilbraltar-e-Canárias, Índias-e-ilhas-do-mar­-oceano, Quinze ilhas, a esquerda; e desenho das armas do reino do Algarve, muito inspirado no da Carte nouvelle de la parte meridionale du royaume de Portugal et des Algarves, por Jean Couveus e Corneelle Mortier, impresso em Amesterdão (entre 1665 e 1706, segundo S. Alves de Azevedo), à direita.
Ver AZEVEDO, Francisco Simas Alves de (1984).
ficheiro da ilustração: “Pentateuco - Brasão Algarve.JPG”

Outra conclusão que será licito tirar é que, nos dois últimos decénios do século XV, enquanto em Faro se destacava a acção tipográfica desen­volvidas por Samuel Gacon, em Lisboa se notabilizava, nesse mesmo contexto a de (entre outros) Elieser Toledano. Este último, no primeiro ano da sua actividade entre nós (1489), fez editar obras como Novas da Lei ou Comentário ao Pentateuco e Comentário à Ordem das Orações, a última das quais, segundo Amzalak, foi adquirida no começo da década de vinte, pela Biblioteca Nacional de Lisboa, na Alemanha. Poder-se-ia concluir, ainda, que na tipografia judaica de Leiria – e algumas investigações entretanto já realizadas apontam que ela se situaria não muito longe do castelo da cidade e numa ruela a que tais oficinas chegaram mesmo a dar o nome – Samuel d’Ortas terá sido o grande “obreiro” neste tipo de activi­dade. Tal “mester”, afinal, passá-lo-ia depois (ao que era tão frequente no espírito corporativo da época) aos seus próprios filhos. Desconhecemos, no entanto, o laço de parentesco – estrito embora, é certo – entre Samuel d’Ortas (responsável em 1492 pela edição dos Provérbios de Salomão) e Abraão d’Ortas que em 1495 (três anos depois, portanto), fez sair dos seus prelos a obra Caminho da Vida. Será que Abraão era pai de Samuel e incutiu a este – bem como a outros filhos – os segredos, o rigor e o “cui­dado” da sua Arte?
Tivesse também em Leiria a produção tipográfica hebraica sido mais ampla (ou não) do que hoje se conhece, é um facto que aí os impressores, à semelhança do que sucedia em Lisboa e em Faro, sentiram uma natural e justificada inclinação para editar e, sobretudo, comentar o Pentateuco.
Nesses fins do século XV era naturalmente seguida, pela sua impor­tância, a Biblia dos Setenta. Assim, também os judeus exegetas – segundo o testemunho de Joaquim Carreira Marcelino das Neves[31] – estavam em crer que “os 72 anciãos, reunidos por Ptolomeu com o fim de traduzirem o Pentateuco, actuavam sob o carisma da inspiração divina. Filão de Ale­xandria diz explicitamente que os tradutores dos LXX não são apenas tradutores, mas hierophantes et prophétes: ces hommes qui ont pu suivre par des expressions transparentes la pensée si pure de Moïse”. Esta tra­dição é conservada no Talmud Babilónico.
Tendo debatido exaustivamente esta problemática, Marcelino das Neves acaba por concluir que “os LXX não são apenas uma tradução, mas também uma recriação e interpretação do original hebraico. Também é verdade que o Novo Testamento usa destas interpretações para exprimir o mistério de Cristo. Mas nunca esqueçamos que os LXX são antes de mais uma actualização do original hebraico com um fim bem determinado: con­solar os fiéis, os pobres, os justos e a diáspora judaica e levar-lhes a certeza da próxima redenção do jugo inimigo e dos mais judeus que o dirigiam”.
Admita-se que só nas três cidades de Faro, Lisboa e Leiria actuassem, numa primeira fase, essas mesmas tipografias hebraicas. Somos levados a concluir, assim, que da região do litoral tais técnicas – e consequentemente as acções daí resultantes – passassem assim, a ser dirigidas para o interior do País, presumivelmente entre 1488 e 1495. Nesse modelo de penetração técnico-cultural desempenharam, em particular, um decisivo papel, a um nível endogâmico e a um nível exogâmico, três intervenientes precisos:

- o rico comerciante judaico;
- o almocreve (inicialmente ligado, também, ao culto judaico);
- e o aristocrata em viagem.

Quanto ao “rico comerciante judaico”, esse indivíduo (ou grupo) está associado, a nosso ver, à importação das primeiras “impressoras”, rudi­mentares, já se vê. Ele estava motivado, antes de mais, pela mira do lucro. A introdução do “novo” aliciava-o a agir nesse sentido, com as “portas” verdadeiramente franqueadas[32].
Um lugar não menos decisivo ocupou, então, sobretudo num contexto de ruralidade, o almocreve. Era ele – e alguns estudos de especialistas como Humberto Baquero Moreno atestam nesse sentido – o grande elo de ligação intercomunitária, ligando espaços rurais a espaços rurais, ou espa­ços urbanos a espaços rurais e vice-versa.
O almocreve – para além dos produtos de comércio (utilitário domésti­cos) que transportava, designadamente, azeite, tecidos, botões ou, ainda, novas técnicas como o fogão de barro, uma forma primitiva de tesoura, e agulhas, etc. – é também um elemento intermediário e de propaganda, de difusão ou contágio. Não era ele, apenas, que transportava as novas, como também divulgava o conceito de novo, ao nível das novas técnicas surgidas.
O almocreve desempenhou também, de facto, um papel decisivo no que respeita à chegada à aldeia, à micro-comunidade regional, dos espécimes bibliográficos (mesmo que ele fosse analfabeto, como em muitos casos, se não mesmo na sua esmagadora maioria, se verificava.) A cultura da escrita sobrepunha-se, assim, a essa arcaica cultura oral-empírica e que muito tardaria a ser suplantada. É evidente que esse atraso se deveu, fundamentalmente, à falta de amplas medidas tendentes à alfabetização popular.
Só neste século, em certa medida, é que o conjunto de analfabetos principiou a atingir índices menos gritantes (embora, naturalmente, ainda não satisfatórios).
O terceiro componente a que atrás fazíamos referência é o aristocrata em viagem. Ele faz chegar ao interior do País – sobretudo junto da aris­tocracia reinante, descentralizada, nos contextos de ruralidade da época –, durante as suas incursões de tipo comercial ou de mero carácter recreativo (designadamente venatório), como prolongamento da sua cultura, muitas vezes obras de imitação dos clássicos, designadamente Marco Túlio Cícero ou Séneca[33]. Tais obras normalizam, por vezes, a conduta social do nobre, disciplinam a sua actividade em termos de vida social, num plano de exercício em comunidade – os jogos, os torneios, partidas recreativas – ou em privado, designadamente no que respeita à educação dos filhos nobres, à maneira de se comportar à mesa, de negociar um casamento, ou falar ao coração de uma donzela.

7- A penetração das tipografias judaicas no interior do país

Ao longo da última década do século XV, a acção tipográfica judaica, nas cidades de Faro, Lisboa e Leiria foi sendo, gradualmente, objecto de intensificada vigilância. Já nos primeiros tempos do reinado de D. Manuel, mesmo antes do tão conhecido decreto, de 1496, da expulsão do povo judaico, a gente de Nação passou a sentir não só as mais vivas represálias, como a mais acesa perseguição.
À semelhança do que sucedia em Lisboa, também nas judiarias das cidades do Sul do país, como Évora, Beja e Faro, essa perseguição não deixou de ser uma afrontosa realidade. Estamos em crer que foi na sequên­cia de tal situação que os filhos de Samuel Gacon Porteiro partiram de Portugal para o Levante, mais concretamente para Itália e Constantino­pla. E, ignorando-se também se o pai daqueles técnicos partiu com eles, podemos hoje, no entanto, afirmar, que à semelhança do que já no século XIII fora Moses ben Nahman, Samuel Gacon foi, pelo menos, um editor do Talmud com os olhos postos no Oriente.
Para aqueles que em 1495 ainda não tinham partido, a perseguição era efectivamente feroz. Isso verificava-se, pelo menos, na cidade de Évora, o que levou a Rainha D. Leonor a escrever uma carta – datada de 24 de Outubro desse ano, e dirigida a D. Fernando de Castro, Conde de Lemos e Trastâmara – em que incumbia aquele dignitário “de proteger a comuna judaica, então ameaçada de expoliações e violências”[34] .
Em relação à vida dos judeus, nesses últimos decénios do séc. XV, em Beja e Faro, ela decorreria também – à semelhança do que se verificou em relação à comunidade eborense – também em moldes de uma mani­festa segregação ou, mesmo, ao nível de uma auto-marginalização. Existe documentação apropriada que permite estabelecer, para este período, um nítido traço de união entre a comunidade judaica de Beja e a de Faro. Mais importante que isso é, porém, o facto de se poder admitir – embora a falta de documentos precisos nos impeça de o afirmar categorica­mente – uma identificação de um tal “Gagim Judeu morador” da cidade de Faro, com Samuel Gacon (ou Porteiro), impressor do Pentateuco, na mesma cidade, em 1487.
Esta hipótese de identificação foi aventada, pela primeira vez, por Alberto Iria, académico e um dos mais distintos investigadores da História do Algarve, na conferência “os Judeus no Algarve Medieval e o Cemitério Israelita de Faro do século XIX, História e Epigrafia...”[35], pronunciada em 24 de Novembro de 1983 na Academia das Ciências de Lisboa.
Segundo Alberto Iria “em Beja, a 9 de Novembro de 1489, el-Rei D. João II confirmava a Abraão Alegria, morador em Faro (faarão), a carta de aforamento que, nesta vila algarvia, lhe fizera Fernão de Espa­nha, contador da Casa Real e, por especial mandado régio, contador neste Regno do algarue, em 8 de Agosto de 1488.

Neste aforamento, Fernão de Espanha fez saber que por díuida que huū manuel (?) gagim Judeu morador na dita villa deuia ao dito Senhor [Rei] da parte que teue das Remdas do Amoxarifado da dita uylla o anno passado de lxxxiiijº (sic) lhe foram tamadas (sic) hūas casas que por ello tinha dadas a fiamça da dita Remda ho dito anno o dito abraão elegria (sic) seu cunhado.

“Metidas estas casas em pregão, só Abraão Alegria licitou, pelo que lhe foram aforadas por 400 reais de foro anual, enfatiota, a pagar em Janeiro, já no ano de 1489”, sublinha ainda o autor de “Os Judeus no Algarve medieval”...
As casas estavam localizadas na própia “Judaria”: as quaes [casas] estam dentro de judaria da dita uilla E partem com casas de jsaque tolle­dano e com casas de Joham de dios e com Rua pruuica...
Mas Abraão Alegria ficou com a obrigação de pagar bem e despacha­damente vimte Reaees de prata destes de vimte Reaees o Real que fazem catorze e ctmco oytauas e huūa homça por dia de Janeiro em cada huū anno...
Este aforamento – constante do Livro II de Odiana, a fl. 217 v.º – foi feito em Faro por Fernão Gonçalves, porteiro dos contos por Fernão Vieira, seu escrivão.
É plausível na óptica de Alberto Iria (e corroborando a opinião já expressa por Artur Anselmo) que Samuel Gacon, já referido, “tivesse tam­bém exercido em Faro as funções de porteiro dos Contos, por nomeação régia que, infelizmente, não chegou até nós”.
Estas são algumas das considerações que se nos oferecem fazer no respeitante quer à implantação da tipografia em Portugal, no último quar­tel do século XV, quer às primeiras tantativas de “pôr a circular” pelo interior do País, o produto cultural saído do labor desses mesmos artífices (tipógrafos hebraicos, ou de credo judaico).
Assumiu, de facto, uma enorme importância para a cultura portuguesa de fins da Idade Média e do Renascimento a introdução da Arte tipográ­fica em Portugal, por intermédio da impressão de obras como o Penta­teuco, em 1487 em Faro. A esta comunidade estiveram, aliás, ligadas várias famílias judaicas, até há poucas décadas (Ver APÊNDICE DOCUMENTAL IV).
Foi essa mesma motivação que levou, em 1489, os judeus, estabeleci­dos em Lisboa, a imprimir a mais antiga obra que se conhece, Novas de Lei ou Comentário ao Pentateuco. Ou, ainda, a motivação daqueles impressores cristãos que, nesse mesmo período, imprimiram, em linguagem, o Sacramental (1488?), ou o Tratado de Confissom (1489).
O Pentateuco comemorou, em 30 de Junho de 1987, o quinto centená­rio da sua publicação. E atinge tal relevância a evocação desse remoto acontecimento (artístico-tipográfico) para o Portugal de hoje – quanto ela permite, também, fazer a evocação do passado dos portugueses nos mares, ou lembrar à Europa e ao mundo o peso da Cultura lusíada já nesse tempo.





[1] A passagem desta data, em relação à História da Imprensa portuguesa, foi assinalada, fundamental­mente, com a criação, por parte do Estado português, de uma Comissão para as Comemorações do Quinto Centenário do Livro Impresso, presidida pelo Prof. Doutor José V. de Pina Martins. A mesma data motivou o aparecimento, na imprensa escrita, de alguns artigos. Cfr. MATOS, Manuel Cadafaz de, (1987 a; b), p. 25; pp. 6-7.
[2] Rashi, isto é, Salomão ben Isaac, que viveu entre 1040 e 1105.
[3] Ver-se-á, adiante, o significado de Porteiro, quer a um nível de comunidade cristã, quer a nível de comunidade judaica.
[4] ANSELMO, Artur, (1981), pp. 427-428.
[5] HORCH, Rosemarie Erika (1956), pp. 283-285.
[6] Rosemarie Erika Horch, na sequência das pesquisas que desenvolveu nesta biblioteca brasileira em particular durante a preparação do catálogo (referido na nota anterior) – escreveu um artigo para a revista Prelo, da Imprensa Nacional (Lisboa), onde defende tratar-se do mais antigo livro impresso em linguagem portuguesa.
[7] Diário de Notícias de 25 de Maio, de 1965. Oito anos depois Pina Martins veio a editar, em fac-simile, o Tratado de Confissom.
[8] Continua hoje a desconhecer-se qual a oficina de fundição em que foram produzidos os carateres hebraicos utilizados em Faro por Samuel Gacon.
[9] MATOS, Manuel Cadafaz de, (1986 / 1987), pp. 256-285 / pp. 291-312.
[10] Esse papel, no entanto, chegava também a Portugal (entrando por portos como os de Faro, Lisboa, Porto, Setúbal e Viana do Castelo), proveniente de regiões do ocidente europeu como da Galiza, do oeste e norte de França, e da Itália mediterrânica. Cfr. LARES, Maria Manuel Fernandes Pinto (1989).
[11] AMZALAK, Moses Bensabat (1928), p. 10-11.
[12] POSNANSKI, S. (s.d.), p. 125.
[13] AMZALAK, Moses ben (1941), pp. 1-4.
[14] No campo de autores judaico-portugueses que se auto-exilaram neste período, conta-se, ainda, David Ibn Yahia Ben Solomon que nasceu em Lisboa em 1440. Autor de uma gramática, Leshon Linundim, ele optaria mais tarde por partir (em data que não se tornou possível precisar) para Constantinopla, onde veio a falecer em 1506.
[15] MARTINS, José V. de Pina (1973), p. 12.
[16] O “único" exemplar que se conhece do Pentateuco é, segundo Amzalak (op. cit.) o que se encontra depositado no “British Museum”, Londres. Sobre esta obra trabalhámos na capital britânica nos anos setenta, altura em que formulámos a intenção de a divulgar em edição fac-similada por altura do seu quinto centená­rio. FERNANDES, Leão (1935-1936), p. 44. Este último autor refere, a tal propósito, conhecer que “o único exemplar conhecido guarda o British Museum, de Londres”. Também Alberto Iria chamou a atenção (em conferência na Academia das Ciências em 1983) para a necessidade de uma nova edição do Pentateuco de Faro.
[17] PROENÇA, Raul e ANSELMO, António J (1920).
[18] MARTINS, José V. de Pina (1971), p. 208. Francesco del Tuppo terminou a sua edição da Apologia, de Giovanni Pico della Mirandola, precisamente em 31 de Maio de 1487. Curiosamente António Ribeiro dos Santos, apresentou, já há várias dezenas de anos – e acerca da vinda de caracteres hebraicos de Itália para o nosso país esta hipótese: “Ela [a tipografia] nos veio transplantada da Itália, e por mãos dos Hebreus, que eram os únicos naqueles tempos que a estabeleciam e propagavam por toda a parte, porquanto os Judeus, maiormente os alemães da cidade de Spira, que haviam passado à Itália, tinham levantado os seus primeiros prelos nas cidades de Socino (sic), de Piobe (sic), de Pesaro, de Bolonha e de Ferrara; e destes vieram alguns a Portugal, para onde muito os atraía e convidava a grande quantidade que cá tínhamos de Judeus estrangeiros e nacionais e a esperança do grosso lucro que lhes prometia o muito fervor com que então se tratavam os estudos de literatura sagrada nas sinagogas deste Reino”, in SANTOS, António Ribeiro dos (s.d.), p. 17.
[19] MARTINS, José V. de Pina (1972), apêndice documental, gravura 2. Desta obra, Comentários ao Pentateuco, foi feita uma nova edição, em fac-simile, da responsabilidade de Edições Távola Redonda, Lisboa, 1989, com estudo introdutório de Manuel Cadafaz de Matos. Tendo nós, no estudo introdutório que preparámos para essa edição, apresentado (baseados em Artur Anselmo) os exemplares de tal obra existentes em várias bibliotecas e arquivos mundiais, fomos informados, em carta, por Offenberg, que essa relação pode ser hoje ampliada com estes novos dados: Amsterdam, UB, BRos 1(-3 últ. ff) (Burger; IDL); Berlin (Ocid.), SB 1(VB; Schmitt); Budapest, BN 1(-) (IBH); Cambridge, Clare CL 1(-) (Cohen; Goldstein); Cambridge, UL 2(1-, var) (Cohen; Oates; Goldstein); Cambridge, Mass., HCL, HoughtL l(-) (Goff); Chicago, NewbL l(-) (Goff); Cincinnati, HUCL 1(-fl) (Marx; Goff); Copenhagen, KB 2(1-26ff; 1 frag de 1f) (Madsen); Frankfort/ M., StUB l(Fr.; Ohly-Sack); Jerusalem, JNUL 3(1-1f) (TishbyIsr); Jerusalem, SchockInst 1(-74ff) (TishbyIsr); Leningrad, BAcad, InstOrSt 2(1-9ff; 1-) (Wiener; Chwolson; Jakerson); Lisbon, BN 1(-) (BiblPort; Anselmo; Sul Mendes); London, BritL 1(2ff esq.) (Zedner; Pr.; STCSp-Port; Goldstein); London, JewsCL l(-) (Wild; Goldstein); London, ValmTr l(p.c.); Moscow, Lenin B 2(Kiselev; Verusalimsky; Jakerson); New Haven, YaleUL 2(-) (Goff); New York, HispSocAm l(Goff); New York, JTSL l(Goff); New York, NYPL l(Goff); New York, PML l(Goff); New York, YeshUL 1(Goff); Ottawa, NLCan 1(Hill); Oxford, BodIL 2(St.CB; Pr.; Cowley; Goldstein); Oxford, ChrChurchL l(Goldstein); Paris, BMaz 1(p.c.); Paris, BN 1(-5ff) (Adler; CIBN); Parma, BPal l(TamaniParma; IGI); Philadelphia, RosFound 1 (Goff); Piacenza, BC l(-) (TamaniPiacenza; IGI); Provo, BrYoungUL l(Goff); Reggio Emilia, BM 1(-) (IGI); Rome, BApostVat l(Tishby Vat); Rouen, BM l(Doublet); San Juan, CasadLibro 1(-) (Goff); San Marino, HuntL l(-)(Mead; Goff); Strasbourg, BNU l(Catane); Turin, BN 1(Artom; IGI); Uppsala, UB l(Coljnl Uppsala); Vila Viçosa, PaçoDuc 2(1-) (BiblPort; Peixoto; Anselmo) (exemplar por nós seguido em 1989, no essencial); Warsaw, ZydlnstHist l(Weil); Washington, LC l(Goff); Zürich, ZB l(-) (p.c.).
[20] Vide SILVA, Armando Carneiro da (1955). O Almanach Perpetum, segundo Artur Anselmo “documenta a única impressão gótica saída dos prelos hebraicos” (op. cit., 1983, p. 116).
[21] ANSELMO, Artur, (1981), p. 88, referencia esta obra (além da grande maioria de todas as outros).
[22] Este espécime bibliográfico é descrito (designadamente com reprodução em fac-simile, de um dos fólios, in AMZALAK, Moses ben (1922), p. 20-21, Estampa II.
[23] No cólofon desta obra, que é apresentado por Artur Anselmo (in op. cit., secção “Registo Catalográ­fico”, afirma-se: “... por um homem justo e pobre, R. Elieser, que, entre as balanças (i. e. prensas), trabalhou e imprimiu a Lei com o targum e o comentário de R. Salomão que é a luz dos olhos. Acabou-se em Lisboa, no ano 251 (= 1491), no mês de Av, adicionando (aos 251) três mil e dois mil (3000 + 2000 + 251 = 5251). Seja Deus, que o assistiu, exaltado com harpas, órgãos e címbalos.”
[24] No cólofon deste Comentário à Ordem das Orações, de David Abudarham, refere-se, designadamente: “Impresso em Lisboa, no meio da qual está situada a sinagoga que é o amparo e a mãe de todas as principais sinagogas.”
[25] Do Livro de Orações temos conhecimento directo do espécime existente no Seminário Teológico Judaico de Nova Iorque (de que até há pouco, pelo menos, era bibliotecário o dr. Menahem Schmelzer). Veja-se a respeito desta obra hebraica (e outras). MEZER, Herrmann (1971), vol. 8, cols. 1319-1344. Deve-se a Artur Anselmo (in op. cit.) a primeira referenciação desta obra em edição portuguesa.
[26] No cólofon desta obra refere-se, designadamente: “Impresso em Lisboa, em casa do sábio R. Elieser, no ano Ele voltará radiante de alegria, com as suas gavelas (Salmos, 126, 6), segundo a Criação.”
[27] Sobre este pensador judaico medieval remetemos para Romano David (1986) e R.D.B. (1967), pp. 174-175. Este tratado sobre as Hilkhot Shechitali (Leis sobre o Abate Ritual de rezes), publi­cado presumivelmente em 1492, contém, na expressão de Artur Anselmo “os preceitos da degola dos animais, de acordo com as instruções do Talmud” (op. cit., ed. 1981, p. 262).
[28] Sendo hoje certo que Samuel d’Ortas teve filhos que (também) se dedicaram às artes tipográficas, há quem defenda a tese que ele (o impressor de “Provérbios de Salomão”) e Abraão d’Ortas (o impressor de “Caminho da Vida”), são uma e a mesma pessoa, que se chamaria precisamente Samuel Abraão d’Ortas.
[29] No cólofon desta edição dos Provérbios de Salomão afirma-se: “Executado na oficina impressória do honrado Dom Samuel d’Ortas, num país distante... (com a ajuda do seu hábil filho Abraão (e à custa de) Samuel Kolodro. Acabou-se no primeiro dia do mês de Av (= 25 de Julho)... no ano E eles chegarão a Sião com Júbilo (Isaías, 51, 119...)”.
[30] No cólofon desta edição dos Profetas Primeiros refere-se: “Por ordem textual de pessoas eminentes e das autoridades residentes na comunidade de Lisboa, cidade feliz sob todos os aspectos, a composição foi feita pelos três irmãos, dos quais o pai é o chefe e rei, na vila chamada Leiria, situada na margem do rio do mesmo nome. Acabou-se no ano de (5)254..., na terceira semana do mês de Shevat, perícopa sabática de Mishpatim.”
[31] NEVES, Joaquim Carreira Marcelino das, OFM (1973), pp. 278-280.
[32] Os Judeus tiveram uma particular preponderância em negócios do reino e, também, na benéfica introdução de novas técnicas, designadamente no que respeita à tipografia e ao primeiro fabrico de papel. Nesta época de transição da Idade Média para o Renascimento, a arte tipográfica – e outras formas de arte – contribuíram, ao que é sabido, para a introdução do ideal do Renascimento no nosso país. Importaria, a nosso ver, estudar hoje em detalhe o que concerne à introdução no nosso pais dessas mesmas técnicas científicas e artísticas.
[33] Vide, por exemplo, as edições do Infante D. Pedro, em pleno século XIV, XV, intituladas O Livro da Virtuosa Bemfeitoria (a partir de Beneficiis, de Séneca) ou o Livro dos Ofícios (a partir de De Oficcii, de Cícero).
[34] CAETANO, Oliveira e CARVALHO, José Alberto Seabra (1990), p. 11.
[35] O texto desta conferência veio a ser publicado no tomo XXV das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa (Classe de Letras), Lisboa, pp. 293-334 (ver em particular, pp. 320-321).