sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Ciência Clara


"Ciência Clara" é um projecto de Filipa Moraes, para ajudar jovens a transitar da academia para outros sectores. A sua experiência norte-americana pode ser útil em Portugal.

Ver a página do Facebook: https://www.facebook.com/cienciaclara

Um poema de Jorge Melícias

Um poema do livro Hybris [poesia reunida] (Cosmorama Edições, 2015) de Jorge Melícias:

Um pulmão sulfúrico
extraído à elisão do ar.
Ateado desde o âmnio

como uma degenerescência vital.

Os estames
disseminando-se na refracção,

reduzindo a fluidez

à consumação do atrito.

Bocage o intrépido Capitão Lunardi


Resumo da Comunicação que vou fazer em Setúbal a 12 de Setembro num congresso sobre Bocage:

"Bocage o intrépido Capitão Lunardi"


Diz-se que Portugal é um país de poetas e não de cientistas. Contudo, são numerosas as referências à ciência e à técnica  em textos poéticos de autores nacionais. A ascensão em balão realizada nos céus de Lisboa no dia 24 de Agosto de 1794 pelo  capitão italiano Vicente Lunardi no Balão Aerostático, da autoria Manuel Maria Barbosa do Bocage  é um excelente exemplo. Outros poetas já antes tinham glosado o tema dos balões, como a poesia jocosa, de tom popular e  por vezes anónima, que teve por tema a "Passarola" de Bartolomeu. Mas essa aeronave era hipotética: nunca houve voos tripulados nela. 



Bocage ficou extasiado com a proeza do capitão Lunardi, a primeira ascensão tripulada em solo português por parte de um balonista que já tinha protagonizado experiências semelhantes noutros países europeus (foi até o primeiro a subir em Inglaterra a bordo de um balão, levando a bordo um gato, um cão, uma pomba e uma garrafa de vinho). Lunardi ficou tão satisfeito com o acolhimento recebido em Lisboa que fixou aí residência, tendo vindo a falecer na capital portuguesa. para além dos versos de Bocage, as páginas da "Gazeta de Lisboa" dão-nos hoje uma boa imagem do que foi a ascensão de Lunardi. 

Compara-se o poema de Bocage com  "O Balão aos Habitantes da Lua", de José Daniel Rodrigues da Costa, escrito em 1819, por ocasião de um outro voo em balão em Lisboa, este feito pelo físico e ilusionista belga Étienne-Gaspard Robertson e pelo seu filho Eugène, o primeiro no qual houve entre nós um salto de páraquedas ("guarda-quedas", como se dizia na  época).

Na imagem, ascensão do capitão Lunardi em Londres em 1784.

UM SONETO "CIENTÍFICO" DE BOCAGE

~
De Daniel Pires, grande especialista em Bocage, recebi este soneto relacionado com a ciência:

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento[1]
                                   Nos fenómenos teus, ó Natureza,
                                   Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
                                   Volve o subtil geométrico instrumento;

                                               Enquanto, alçando a mais o entendimento,
                                   Estuda os vastos céus, e com certeza
                                   Reconhece dos astros a grandeza,
                                   A distância, o lugar e o movimento;

                                               Enquanto o Sábio, enfim, mais sabiamente
                                   Se remonta nas asas do sentido
                                   À corte do Senhor Omnipotente;

                                               Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
                                   De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
                                   Do mais, e de mim mesmo ando esquecido.


Bocage


[1] Publicado no primeiro tomo das Rimas, nas edições de 1791, 1794 e 1800, p. 32. A edição original deste soneto, publicada em 1791, difere, sensivelmente, das posteriores, quer no que diz respeito à grafia, quer ao conteúdo. A edição publicada em 1794 é quase igual à de 1800. Apenas a grafia foi modernizada: “arraiga”, no primeiro verso, passou a “arreiga”.

O ensino de Física no Liceu Camões


De um neto de Bernardino Machado, professor da Universidade de Coimbra e Presidente da República, recebi esta fotografia de  Alberto de Sá Marques de Figueiredo, filho de Bernardino Machado, que foi professor de Física no Liceu Camões, desde 1909. Esta é uma fotografia duma aula de física experimental,  retirada do blogue de Manuel Machado Sá Marques:

 “BERNARDINO MACHADO” -  http://manuel-bernardinomachado.blogspot.pt/2009/08/correspondencia-e-recordacoes-e-inumera.html#links

TODOS OS SONHOS DO MUNDO


O livro mais recente do Desidério Murcho saído nas Edições 70, colecção de ensaios que recomendo vivamente, está já à venda em formato impresso e em Kindle, tanto em Portugal como no Brasil.

Pode ser comprado em qualquer livraria ou na Wook, na Livraria Almedina Brasil, ou na Amazon.

NO TRILHO DOS NATURALISTAS

Voltou à RTP2 esta série sobre história da ciência:


Religião ou Literatura?

Informação recebida de Adriano Simões da Silva, bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto:

O que é mais importante, a Religião ou a Literatura?

Não queremos ser provocadores, mas apenas saber do ponto de vista bibliométrico, ou seja: - O que ocupa mais espaço na Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ?

Nos periódicos (jornais e revistas), é fácil responder graças aos assuntos:

Boletins paroquiais (BN-P)
559
Eram 546
TOTAL
Escutismo -- Periódicos (SIPOR)
77
Religiões (Classe 2)
Religiões -- Periódicos (SIPOR)
1179
ERAM 940
1889

Pesquisando por assuntos no nosso catálogo online, disponível em: http:\\bibliotecas.cm-porto.pt, obtemos:

Revistas literárias (BNP)
706
SUBIU
Literatura -- Periódicos (SIPOR)
254
TOTAL
Poesia -- Periódicos (SIPOR)
73
Literatura (Classe 8)
Linguística -- Periódicos (SIPOR)
37
NOVO
1070


Concluímos assim que nos periódicos há mais Religião (1889 títulos) do que Literatura (1070 títulos)! Quase o dobro…

Mas isso significa que ocupa mais espaço? Sim. As revistas literárias terminam normalmente no nº 1 ou no 1º ano, sendo raras as que se publicam há 7 anos ou mais, como a revista literária do Porto “As Artes Entre As Letras”, que se publica desde 2009, enquanto os boletins paroquiais publicam-se enquanto o padre é vivo e os boletins de Ordens Religiosas sobrevivem aos diretores, porque há sempre outro padre ou frei que assume a missão de editar o boletim da sua Ordem Religiosa.

Nos livros, como não há assuntos, não conseguimos responder com esta facilidade.
Contudo, como a Religião corresponde à classe 2 da CDU (Classificação Decimal Universal) e a Literatura à classe 8 da CDU; sendo os livros na BPMP, desde 1999, arrumados de acordo com essa CDU, podemos fazer as contas desde 1999:


Tamanhos
Assunto
Classe
a (pequeno)
b (a4)
c (grande)
TOTAL
Religião
2
5525
1900
178
7603
Literatura
8
26956
21986
411
49353

Concluímos assim que, nos livros, há quase 7 vezes mais Literatura (49353 livros) do que Religião (7603 livros), editados desde 1999.
(como a BPMP tem as livrarias de antigos conventos, talvez no total da BPMP talvez não seja bem assim, mas na falta de assuntos, não o podemos calcular).

Concluímos assim que:
nos periódicos há mais Religião do que Literatura;

2º nos livros há mais Literatura do que Religião.

Adriano Simões da Silva

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A terra mais próxima da Terra


Agora que foi anunciada a descoberta a terra mais próxima da Terra , convém lembrar as palavras do físico inglês Isaac Newton no escólio geral na sua monumental obra “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, publicada em 1687 (há tradução portuguesa da Fundação Gulbenkian, com tradução do latim do físico e padre Resina Rodrigues, para além de uma edição da Texto Editores, com base numa edição brasileira, que eu revi à cabeça de uma equipa ):

“Este muito belo sistema do Sol, planetas e cometas só poderia provir do desígnio e domínio de um Ser inteligente e poderoso. E se as estrelas fixas forem centros de sistemas semelhantes todos eles forem formados segundo um desígnio semelhante e sujeitos ao domínio desse Ser, especialmente porque a luz das estrelas fixas é da mesma natureza da luz solar e todos os sistemas enviam luz uns aos outros. E para evitar que os sistemas de estrelas fixas, pela gravitação, caíssem uns sobre os outros, Ele colocou-os a imensas distâncias uns dos outros.”

Em 1584 o filósofo e teólogo italiano Giordano Bruno, que não foi propriamente um cientista, já tinha escrito to no seu livro “Do Universo e dos Mundos. Acerca do Infinito” (de 1584; também há tradução portuguesa na Gulbenkian):


“Por isso é necessário investigar se existe, além do céu, Espaço, Vazio ou Tempo. Pois há um único espaço geral, uma única vasta imensidão quais podemos livremente chamar Vazio; nela existem inumeráveis globos como este em que vivemos e crescemos. Declaramos que o espaço é infinito, uma vez que nem a razão, conveniência, possibilidade, senso-comum ou a natureza lhe atribuem um limite. Nele há uma infinidade de mundos do mesmo género que o nosso.”

Hoje estão catalogados mais de 3500 exoplanetas correspondentes a quase outros tantos sistemas planetários. As intuições de Newton e Bruno estavam certas. E é fantástico que a estrela mais próxima tenha um planeta com algumas semelhanças à Terra!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Chemtrails: facto ou teoria da conspiração?

"Que rastos são aqueles nos céus?", é uma pergunta que se pode colocar ao olhar para cima, ao observar o fumo branco deixado pelos aviões. São rastos de condensação (em inglês condensation trails, ou contrails) formados, como resultado da combustão, pelo vapor de água que congela a grandes altitudes, onde as temperaturas são baixas. No entanto, há uma teoria da conspiração que alega que esses rastos são químicos (chemtrails) libertados deliberadamente para envenenar a população. 

Quando comecei a escrever sobre este tema para a COMCEPT, estava longe de imaginar a quantidade de seguidores desta teoria da conspiração. Durante muito tempo, este foi o tema que gerou mais visualizações e mais comentários. 

Hoje, o jornal Público apresenta a notícia de que um grupo de investigadores dos EUA indagou junto de diversos especialistas se tinham encontrado evidências que sustentassem estas alegações. Os resultados foram publicados na revista Environmental Research Letters. Pode-se adiantar que, das 77 respostas, 76 cientistas disseram que "não".  

O jornalista cita ainda um texto que escrevi há tempos para a COMCEPT (ver aqui).

Fotografia que mostra um rasto de condensação (contrail). 
Autoria: João Monteiro

Camilo e a química - o tabaco e os romances...

O jornal Expresso está a oferecer reedições de alguns livros de Camilo Castelo Branco. No sábado passado foi a vez de O que Fazem Mulheres.  Trata-se de um livro verdadeiramente divertido e irónico que antecipa "os modernos processos da literatura inter-activa" segundo escreveu Annabela Rita no Prefácio. 

Camilo avisa no capítulo inícial a todos os que lerem (antecipando o que virá a seguir, realcei algumas frases com referências científicas e químicas):
"É uma história que faz arrepiar os cabelos.
Há aqui bacamartes e pistolas, lágrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e demónios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo final.
[...]
Há aí almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de asfalto?
[...]
Aqui há cebola para todos os olhos.
[...]
Cadinhos de fundição metalúrgica para todos os peitos.
[...]
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um cáustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagelos da inspiração corrosiva, com duas onças de sublimado?
Se não sabe o que isto é, estude farmácia, abra um expositor de química mineral, e verá."
Segue-se um "Capítulo Avulso -  Para ser colocado onde o leitor quiser", linhas de reticências que aparecem mas não significam nada, voltas, viravoltas e reviravoltas narrativas, dialógos com os leitores e editores, cartas anónimas que o autor não conseguiu ler e por isso não sabe o seu conteúdo, mulheres espertas, diabólicas e santas, e homens vagamente tolos. E termina com dois finais antagónicos, em dois capítulos com a palavra "FIM", sendo que o último destes é denominado "Suplemento - Prefácio".
  
Há também um charuto com um papel secundário mas importante que aparece inicialmente no capítulo avulso numa diatribre contra o tabaco (antecipando também os anúncios anti-tabágicos chocantes - e não é igualmente chocante a imagem acima!?),
"Para vós, Bórgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós envenenadores impunes, o patíbulo neste mundo, donde fugiu espavorida a vergonha e a justiça; e os caudais de súlfur em combustão eterna nas furnas tartáreas, onde é de fé que dá urros medonhos um condenado chamado Nicot, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudência de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.
Porque os vossos charutos propinadores de venenos, enegrecem as substâncias orgânicas, como o ácido sulfúrico.
São amargos e cáusticos como o ácido nítrico.
Calcinam os beiços como o ácido hidroclórico.
Queimam a laringe como o ácido fosfórico.
Laceram o esófago como o acetato de chumbo.
Fulminam e despedaçam como o ácido hidrociânico."
Estas referências químicas, que são razoavelmente exactas tanto quanto é conhecido das substâncias referidas, tinham-me escapado, por não conhecer este livro, quando escrevi sobre a química em Camilo! O que foi uma pena, pois, em seguida Camilo refere que,
"Um manual de química para uso dos leitores de romances é instantemente reclamado. Sente-se na literatura este vazio, desde que a novela é um estendal da ciência humana;"

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Arte e Ciência. Cientistas em workshop internacional em Viseu


Informação recebida dos organizadores do Art Lab 2016 em Viseu:

Cientistas nacionais e internacionais juntam-se em Viseu, na escola Alves Martins, para discutir o futuro da humanidade em temas como envelhecimento, a falta de comida e de água potável. Rene Oettkerli, Udo Schnitzbauer, Tiago Boaventura, Steven Brown, Carlos Fiolhais e Carlos Duarte são algumas das presenças já confirmadas para o workshop “Art Lab 2016”, Science Xplore, que irá decorrer entre 5 a 10 de setembro de 2106, na Escola Secundária Alves Martins, em Viseu.

 O tema para o workshop deste ano designa-se por “Back to the future” (De volta ao Futuro), decorre em inglês e estará disponível para alunos entre os 12 e os 17 anos que irão trabalhar em conjunto com os cientistas e palestrantes presentes para solucionar problemas de 2050: envelhecimento, a falta de comida e de água potável. As inscrições puderam ser feitas no site: www.sciencexplore.org  até dia 15 de agosto. Houve 20 vagas disponíveis.

 O programa para os cinco dias inclui atividades das 9h00 às 12h30 e projetos experimentais de robótica, tintas fotossensíveis, animação em stop-motion, química verde e linguagem das redes sociais, das 14h00 às 17h30. O encontro tem como objetivo o de criar “relações académicas entre artistas e cientistas das diversas nacionalidades”. A Science Xplore é uma recente associação sem fins lucrativos que “pretende estimular o gosto pelas ciências e pela arte, recorrendo a abordagens assentes no saber fazer e no saber pensar”. O workshop de robótica da Science Xplore conta com a colaboração do departamento de engenharia eletrotécnica, do Instituto Politécnico de Viseu.

Divulgação da Física por Eduardo Martinho


Eduardo Martinho acaba de publicar a compilação do conjunto de 29 artigos publicados no jornal O MIRANTE (agora em versão melhorada):


domingo, 21 de agosto de 2016

O8/03/08 - Memórias da Grande Marcha dos Professores


O título "08/03/08" de um livro que a Oficina do Livro publicou 2016 é uma data mas o subtítulo esclarece, para quem não se lembra da data, o que se passou nesse dia: a “Grande Marcha dos Professores”. Tratou-se de uma manifestação de quase cem mil professores na Baixa de Lisboa, do Marquês de Pombal à Praça do Comércio, em protesto contra a política educativa de  Maria de Lurdes Rodriguesa, ministra da Educação de José Sócrates. Segundo a badana foi “a maior manifestação de uma classe profissional em tempos de democracia”. Pela primeira vez  foram usados em proifusão os meios digitais para a mobilização das “hostes”: blogues, emails, SMS.

O autor, Paulo Guinote, é um bem conhecido professor do ensino básico.  Era na altura o responsável pelo blogue “A Educação do meu umbigo”, o blogue mais lido sobre educação. Não só usou o seu blogue para a mobilização como esteve lá, pelo que o seu relato é em primeiríssima mão. Como o autor diz logo no início: “Não é uma narrativa neutra (...) É um olhar para um acontecimento a partir de dentro para quem esteve no meio dele, com convicção.” Agora consultou os registos da Internet da época, os recortes de imprensa, fez entrevistas a professores (55 questionários recolhidos), jornalistas e até, sob anonimato, a um funcionário do ministério. Guinote conseguiu assim uma bem documentada memória do que se passou nesse dia e nos tempos que o precederam. Em causa estava o novo estatuto dos docente e a avaliação do desempenho docente. Lembro-me bem desses tempos conturbados: o mal estar nas escolas atingiu proporções extraordinárias. O tom era muito áspero de parte a parte. O escritor e cronista Manuel António Pina (entretanto já falecido) perguntava no JN: “Porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?”

Nas ruas de Lisboa, proveniente de todo o país, transbordou a indignação colectiva. Havia uma plataforma sindical (os sindicalistas principais, incluindo Mário Nogueira, aparecem nas ilustrações do livro à frente da manif) mas os protestos excediam largamente o enquadramento sindical. A ideia dos manifestantes era apear a ministra e mesmo, se possível, o governo, apesar de muitos deles serem da área do PS. Mas o que ficou afinal do dia 08-03-08? Os professores ficaram com uma mão quase vazia. A 12 de Abril era celebrado um memorando de entendimento entre o ministério e a plataforma sindical, em que a ministra, a troco de algumas cedências, esvaziava os protestos. Guinote lembra que muitos professores não se sentiram representados pelo memorando assinado pelos sindicatos. Um blogue de um professor apresentava numa fotomontagem a ministra como uma bruxa a dar uma maçã envenenada. “Mal-empregada manifestação”, comentava um outro professor, denotando o tom geral de desilusão.

Em epílogo Guinote revela que, em Julho de 2019, esteve na Livraria Almedina do Saldanha, na apresentação de um livro da ex-ministra (já tinha sido substituída por Isabel Alçada) na qual ela deixava para memória futura a sua versão do que se passou na sua pasta. Viu, por isso, o cortejo de políticos que sempre acompanham os seus correligionários que lançam livros. Comprou um exemplar e verificou que a ex-governante omitia por completo a grande contestação que tinha sofrido. Escreve ele:
“Foi uma espécie de encerramento da um ciclo da minha vida pessoal e profissional. (...) Porque confirmei muito do que tinha entrevisto à distância em 2008 e 2009: um enorme consenso da maioria do arco da governabilidade e suas extensões académicas em defender Maria de Lurdes Rodrigues e a sua política de 'reformas' em confronto aberto com os professores. A 'firmeza' elevada a qualidade em si mesma, quase que independentemente do mérito e da forma demagógica como se enunciavam as 'causas' ”.
Foi há oito anos e já houve a troika depois disso, que também não foi nada simpática para os professores, que no final ficaram muito desiludidos com Nuno Crato. Hoje, nas escolas, resta ainda desse tempo uma atmosfera de desilusão pela forma como os professores eram e continuam a ser tratados pelos políticos. Está em vigor uma “avaliação” de professores mas é uma burocracia de faz-de-conta, em que todos perdem tempo, que serve apenas para salvar as aparências. O livro não pergunta, dada a data em que foi escrito, mas pergunto eu: não é irónico ver hoje, desfeito o antigo “arco da governabilidade”, juntos pela geringonça quem esteve em 08/8/08 dos dois lados da barricada?

A PROFECIA


Recentemente. tive oportunidade de apresentar no belo Café Santa Cruz em Coimbra, com casa cheia, o livro de António Costeira, "A Profecia", Edições Vieira da Silva, 2016) do qual saiu recentemente segunda edição).

Devo começar por dizer que não sou um  grande leitor e, portanto, conhecedor do género fantástico, no qual se insere o primeiro livro de António Costeira (parabéns, nunca é tarde para começar!). Isto apesar de saber que é um dos géneros literários mais apreciados em todo o mundo, sendo por isso um dos que mais vende. Os clássicos são (consulto a Wikipedia: a tabela indica autores e os números mínimo e máximo da estimativa de vendas em todo o mundo de todos os seus livros)

C. S. Lewis (1898-1963)100 million200 millionEnglishThe Chronicles of Narnia, fantasy, popular theology
J. R. R. Tolkien (1892-1973)200 million250 millionEnglishThe Lord of the RingsThe Hobbit, classical fantasy

Mas há também dois "modernos clássicos":
George R. Martin (n. 1948)50 million60 millionEnglishA Song of Ice and Fire
J. K. Rowling (n. 1965)350 million450 millionEnglish
Harry Potter

O livro A Profecia, de subtítulo Naur'can, inscreve-se nessa tradição, sendo imediatamente perceptível que o autor conhece os clássicos. A linguagem de Costeira, filho de uma professora primária que deixou no seu espólio um conto infantil não publicado, é simples, mas a simplicidade do discurso é próprio destas obras com enredos muito complexos. Há muitos personagens e quer o espaço quer o tempo são muito abrangentes. O autor apresenta no início da obra um índice de personagens principais e a sua descrição dá logo a ideia de um cenário fantástico (aqui a ordem não é alfabética): 

 "Davdak: Mago, meio-irmão de de Astrid que com ela estudou pacificamente o livro das Runas. Na sua ambição de poder, quis o livro só para si, provocando com isso a fúria dos deuses e a destruição de Naur'can, tornando-se inimigo do povo elfo. Mantém a intenção de recuperar o Livro. 

 Astrid: Maga Suprema de Alagosadhar e irmã de Riclamin. Recebeu deste os Ovos de Dragão, distribui-os pelos povos e iniciou a dinastia dos Guardiões. Dedicou.-se ao estudo da profecia e lançou as bases para o seu início na Aldeia Perdida, para onde se retirou.

 Riclamin Stark: Irmão mais novo de Astrid e meio irmão de Davdak, embora o não soubesse. Guiardião da Nação Elfa, foi responsável pela vinda dos Ovos de Dragão e pela recuperação do Livro das Runas. Travou uma batalha com Davdak no deserto pela posse do Livro e veio a morrer em consequência dos ferimentos.

 Jankahn: Maga, filha de Astrid, e que ficou no seu lugar como professora de magia em Alfheinstad. Era a guardiã secreta do Livro das Runas e foi através dela que Na'Akano se revelou. 

 Na'Akano: Filho adotivo de Gilvo e pupilo de Astrid, foi para ele que o Livro das Runas se abriu, após longos anos de estudo com Jankhan."

Para facilitar a orientação espacial, o autor coloca também logo a abrir o livro um mapa da região onde se situa a acção: o fantástico reino de Alagosadhar, cuja antiga capital (a cidade foi destruída por um cataclismo) é precisamente o nome do subtítulo Naur'can. Nesse mapa, uma penínsulas montanhosa banhada por dois mares, encontramos nomes estrangeiros como Naur'can, Smênae e Alfheistad, mas também nomes portugueses como Pedra do Urso, Castelo de Vide e Forte Salvaterra (há também uma Vila Costeira, que joga com o nome do autor). Há ainda no início do livro uma explicação dos caracteres runas,a tradição cultural dos vikings, que foram usados no cirth, a linguagem mítica criada por Tolkien, e que aparecem em vários trechos do livro.

 O leitor só pela apresentação dos personagens já deve ter uma ideia do que encontrará no enredo: livros com segredos, magos poderosos, ovos de dragão, grandes ameaças, lutas terríveis. Mas o mais interessante, na minha opinião, do livro é que ele, enquadrando-se na chamada fantasia medieval (com clara influência das mitologias celtas, germânicos e escandinavos, povoados de elfos e outros seres de fantasia), o livro é também de ficção científica. Uma parte da acção passa-se na actualidade: Carlos, um graduado em "engenharia física e química" da Universidade de Coimbra, autor de uma tese de doutoramento sobre fusão fria (fantasia, claro), é abordado na cantina universitária por dois estranhos, que o convidam a instalar uma central num longínquo país nórdico. O leitor imagina já que essa central está localizada na paisagem fantástica do mapa. O autor faz, na escrita, um vaivém entre os tempos antigos e modernos. A certa altura personagens modernos entram no interior da terra e encontram...

 Deixo, um excerto que descreve uma viagem de Na'A (quer dizer Na'Akano) num deserto. As constelações não são as nossas, o que nos remete para mundos extraterrestres apesar dos nomes portugueses de algumas terras:

 "O MAPA DAS ESTRELAS sempre fascinara Na’A, mas agora no deserto elas pareciam ter um brilho diferente. Ou talvez agora olhasse para elas sob uma nova perspetiva. As estrelas não estão ali por capricho dos deuses, dissera-lhe uma vez Astrid, fazem parte da criação e, entre outras coisas, ensinam-nos o caminho quando não há outras referências, como por exemplo no deserto.

 E era agora o caso. Depois de terem respondido ao apelo do desesperado Edgard, Drellïas tinha aceitado o repto que o Duque de Unhais lhe lançara para o ajudar como seu novo comandante militar, e ele seguira o seu caminho. 

 As esparsas e amarelas luzes da cidade há muito tinham ficado para trás, e as noturnas areias frias daquele deserto deslizavam inertes sob os cascos do seu cavalo, enquanto meditava nestes assuntos. Quando entrara no extenso areal, passando por entre as últimas acácias espinhosas e arbustos pardos que marcavam o início daquela vegetação xerófila do deserto, envolvera-se na quente manta que trouxera e procurara aquela estrela que deveria manter sempre à sua direita, ligeiramente a fugir na direção da sua orelha. Não sabia porquê, mas era a única estrela que se mantinha fixa, sempre no mesmo sítio enquanto as outras passavam por ela. Era a Estrela da Mansão, aquela onde os espíritos dos antepassados repousavam e ajudavam os viajantes em busca do seu destino. O rendilhado do céu era tecido de miríades de estrelas, algumas formando formas bizarras sem sentido, mas outras, como a constelação do Auroque ou do Urso, espelhavam no céu o modelo que lhes dera nome. Havia muitas, mas a constelação do Ceptro, que o olhava de frente, era neste momento a mais importante.

 Em resumo, uma leitura fantástica... A acção fica um pouco em suspenso, pelo que aposto que vai haver continuação. 

TOP TEN DE LIVROS DE AUTORES DE FICÇÂO CIENTÍFICA E FANTÁSTICA NA BIBLIOTECA PÚBLICA DO PORTO

Nova contribuição do bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP), Adriano Simões da Silva:

TOP AUTORES DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTÀSTICA
Quais os mais conhecidos e vendáveis autores de ficção científica? Procurámos a resposta no catálogo online da Biblioteca Pública Municipal do Porto, disponível em http:\\bibliotecas.cm-porto.pt, sendo este o resultado:

1º VERNE, Jules… 361 livros ou registos (o 1º grande nome do género)
2º BRADLEY, Marion Zimmer… 128 (famosa pelas “Brumas de Avalon”)
3º ROWLING, J.K… 109 (famosa pelo “Harry Potter”, escrito no Porto)
4º TOLKIEN, J.R.R… 64 (famoso pelo “Senhor dos Anéis”)
5º LEWIS, C.S… 62 (famoso pelas “Crónicas de Nárnia”)
6º ASIMOV, Isaac… 60 (autor das “Três Leis da Robótica”, etc., tendo previsto micro-ondas, fibra-óptica, internet, microchips, televisões planas, etc.)
7º WELLS, H. G… 42 (famoso pelo pânico da “Guerra dos Mundos”)
8º CLARKE, Arthur C… 39 (um dos três pais da FC, inventor, etc.)
DICK, Philip K… 39 (na origem do filme “Blade Runner”, etc.)
10º HEINLEIN, Robert A… 28 (autor de “Um Estranho numa Terra Estranha”, etc.)
11º POHL, Frederick + SILVERBERG, Robert.. 27

N.B.: a expressiva vitória de Júlio Verne resulta de uma antiga exposição na BPMP.


Este TOP é o resultado de 15 minutos de trabalho, porque nada é mais rápido e fácil do que corrigir autores, uma vez que o manual (as “Regras Portuguesas de Catalogação”) contém apenas 8 páginas a saber sobre este assunto…

O RÓMULO NO CORREIO DA MANHÃ

O Correio da Manhã de domingo passado, na sua revista, apresenta o Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra:

É a universidade mais antiga do país e uma das mais antigas do Mundo. Criada no reinado de D. Dinis I, a Universidade de Coimbra é uma referência no ensino universitário e uma atração turística pela riqueza histórica, cultural e científica. Aqui funciona um Centro Ciência Viva diferente de todos os outros. 

O centro Rómulo de Carvalho é uma biblioteca de divulgação de ciência, em homenagem ao "grande professor, divulgador, poeta, alguém que relacionou a ciência com o Mundo", diz Carlos Fiolhais, diretor do centro. Funciona há cinco anos num espaço cedido pelo Departamento de Física. É de livre acesso e qualquer pessoa pode requisitar livros num "sítio onde a curiosidade sai daqui completamente morta", brinca Carlos Fiolhais. Há 25 mil obras com o denominador comum da ciência e ainda CD e DVD. Muitas obras foram oferecidas por particulares e o diretor do centro faz o convite: 
"Quem tiver livros que queira partilhar com a comunidade, o Rómulo, na Universidade de Coimbra está pronto a aceitá-los". 
Todos os anos por ali passam 8 mil pessoas.

Ler em: http://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/25-mil-livros-sobre-ciencia

NOS PALCOS DA CIÊNCIA


Sebastião Formosinho é professor jubilado de Química da Universidade de Coimbra. Tive recentemente o prazer de apresentar no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra o seu livro mais recente Nos Palcos da Ciência: uma apreciação estética da heterodoxia científica. O livro é a versão alargada da "última lição" que o autor proferiu em 20 de Setembro de 2013 no anfiteatro principal do Departamento de Química da sua Universidade, entre muitos colegas e amigos (tive a oportunidade de lá estar). É, de certo modo, um resumo da sua trajectória científica e nele o autor faz um balanço da controvérsia que o seu "modelo dos estados de intersecção" (em inglês Intersecting State Models, ISM) e a "teoria de efeito túnel", mais o primeiro do que a última, por ter enfrentado um paradigma instalado na comunidade química, da autoria do químico canadiano Rudolph Marcus, que lhe valeu o Prémio Nobel da Química em 1992. A proposta que Formosinho fez com os seus colaboradores foi considerada uma heterodoxia científica e é esta a história dessa heterodoxia que ele conta no seu livro mais recente, servindo-se de um argumentário vindo das artes. Contra ventos e marés o ISM, a ideia "bonita" do autor, conseguiu afirmar-se, tendo-se já espraiado por várias dezenas de publicações.

O Prof. Formosinho foi meu professor nos idos de 1973-1974, na cadeira de Química Geral: tinha chegado dois anos antes da Royal Institution de Londres, onde tinha feito o doutoramento com  George Porter, Prémio Nobel da Química de 1867 (com Manfred Eigen e Ronald Norrish). Boa parte da Química que eu sei devo-a a ele. Depois disso, tem sido um colega e amigo com quem já escrevi dois artigos, um no Boletim da Sociedade Portuguesa de Química sobre a recepção da teoria quântica em Portugal e outro sobre a "religião cósmica" de Einstein, em sair em breve na revista Estudos do CADC. Não sendo eu químico, foi bondade sua ter-me pedido para apresentar Nos Palcos da Ciência.

A carreira do autor é muito diversificada: inclui as normais componentes científica e pedagógica (para além de professor de uma multidão de alunos, é autor de manuais não só para o ensino superior como para o básico e secundário), mas também uma componente política (foi, embora por pouco tempo, Secretário de Estado do Ensino Superior), de gestão académica (dirigiu o pólo de Visei da Universidade Católica), técnica (foi membro da Comissão Científica Independente, que estudou a Co-Incineração de Resíduos Industriais Perigosos, muito badalada no final do século passado a propósito da cimenteira de Souselas), de empreendedorismo (registou patentes e iniciou startups) e cultural (tem uma série de livros entre a ciência, a filosofia  e a teologia, a meias como o padre Oliveira Branco, vários artigos sobre história e sociologia da ciência, e artigos artigos sobre bibliometria científica). Um autêntico homem do Renascimento, portanto. Marcos de uma longa e fértil longa e fértil trajectória académica foram recompensas públicas como o prémio Artur Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa (1972), a medalha Ferreira da Silva da Sociedade Portuguesa de Química (1984), o Prémio Gulbenkian de Ciência (1994), o prémio de Estímulo à Ciência da FCT (2004) e o prémio Inventa da Caixa Geral de Depósitos (2011). 

Não sendo especialista em química não posso apreciar devidamente a sua contribuição para essa ciência que deixou em quase duas centenas de artigos e em alguns manuais científicos.  Mas, ao ler Nos Palcos da Ciência, fiquei com uma ideia mais nítida da controvérsia que o modelo do ISM provocou e dos méritos dos seus proponentes, O principal autor fez questão, ao longo dos anos, de anunciar ao país e ao mundo as dificuldades que foi encontrando em publicar o modelo e suas aplicações nas revistas científicas, em geral devido a pareceres negativos dos referees. Conhecia os seus livros em que ele foi tratando esse assunto:
- Nos Bastidores da Ciência. Resistência dos Cientistas à Inovação Científica, Gradiva, Lisboa, 1988. - O Imprimatur da Ciência. Das Razões dos Homens e da Natureza na Controvérsia Científica, Coimbra Editora, 1994.
- Nos Bastidores da Ciência: 20 anos depois, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007.
- Uma intuição por Portugal, Artez, Coimbra, 2009 (em cujo lançamento colaborei no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra).
Confesso que, de início, fiquei admirado com o desprendimento com que o autor publicava as frases por vezes nada simpáticas dos referees. Normalmente quando recebemos muitos pareceres negativos abandonamos o caminho por onde íamos (os cientistas aceitam o primado da avaliação por pares, que apesar de todos os defeitos que possa ter, ainda é o melhor dos métodos de avaliação)Depois passei a admirar a convicção e a persistência do autor. O ISM deve ser a teoria científica moderna de autores portugueses sobre a qual existem mais materiais à disposição dos historiadores de ciência. Em Nos Palcos da Ciência há uma fotografia de pareceres impressos em folhas A4, a maior parte de rejeição, que formam uma pilha de mais de 7 cm! Está publicada a história praticamente toda do ISM, os falhanços e os êxitos, as rejeições e os apoios. É um exemplo invulgar de enfrentamento de um paradigma instalado na ciência: Marcus e seus seguidores olham para a cinética química (a parte da química que estuda a velocidade das reacções) de uma certa maneira, ao passo que Formosinho e colaboradores olham de outra. A filosofia da aproximação é diferente e as duas reclamam a descrição fenomenológica de um grande conjunto de reacções. Algumas são tão bem descritas por uma como por outra, outras mais por uma ou  outra.

O mote para a apresentação do ISM em Nos Palcos da Ciência (repare-se que de 1988 para 2015 o modelo passou dos bastidores para os palcos...)  é, como foi dito, o da apreciação estética. O químico Jorge Calado, no seu monumental livro Haja Luz (uma obra-prima da divulgação científica, já em 3.ª edição) escreveu que o "pitoresco, o belo e o sublime representam uma hierarquia de experiências estéticas, de intensidade e qualidade crescentes".

Pois, servindo-se dessas palavras inspiradoras, Formosinho mostra como o ISN  foi fazendo o seu caminho ao longo das últimas décadas. O livro pressupõe que o leitor tenha alguns conhecimentos de química, recorrendo aqui e ali a fórmulas matemáticas, mas mesmo quem não esteja dentro dos meandros da cinética química, pode-se deixar embalar pela música da narrativa. As palavras "pitoresco", "belo" e "sublime" vão aparecendo em sucessão. Pitoresco quando uma grande quantidade de dados empíricos eram descritos por um modelo simples (com poucos parâmetros), belo quando o mesmo modelo, devidamente ampliado, passou a descrever dados que outros modelos rivais não conseguiam (uma "dupla região invertida" num gráfico, como a bossa de um camelo, em vez de uma simples região invertida) e sublime, quando, aumentando o domínio de aplicabilidade, os belos se foram sucedendo "em harmonia e consistência".

É curioso referir que a ideia dos modelo nasceu de preocupações pedagógicas: ela veio à luz do dia em 1986 num manual universitário da Fundação Gulbenkian com o título Estrutura e reactividade Molecular, escrito a meias com António Varandas. Escolhendo variáveis adequadas, vários pontos experimentais caíam sobre linhas rectas. Os relatórios de referees foram, porém, arrasadores quando a proposta chegou à caixa de correio de revistas especializadas. A teoria de Marcus estava bem estabelecida e daria, de resto, em breve um Nobel ao seu autor.  Depois ocorreu uma pausa. Escreve Formosinho de uma forma que poderá surpreender alguns leitores:
"O exercício da actividade política como secretário de estado veio-se a revelar útil para a minha investigação, pois permitiu atenuar obstáculos conceptuais que eu mesmo tinha desenvolvido".
Normalmente, os ex-governantes queixam-se do tempo tirado à ciência... Mas há mais: um dos avaliadores sugeriu a certa altura que os autores se afastassem do assunto durante um tempo e Formosinho confessa que seguiu esse conselho! Mas o "bichinho" estava lá e em 1991 voltou. Trabalhos feitos em colaboração com Luís Arnaut permitiram chegar ao patamar do "belo", algo para lá do "pitoresco". Em 2003 eles e outros colaboradores publicaram um artigo na prestigiada revista Journal of the American Chemical Society que pode ser considerado um ponto de viragem na história da teoria (os autores festejaram com um bolo com o nome das iniciais da revista inscrito na cobertura).  E depois não tardou a chegar o "sublime". Em 2007 dois artigos sobre o ISM passaram a ser referidos num manual clássico de química orgânica (o Carey e Sundberg, na sua 5.ª edição) e Formosinho, Arnaut e Burrows publicaram um manual sobre cinética química (Chemical Kinetics. From Molecular Structure to Chemical Reactivity) na célebre editora Elsevier (a editora do último livro de Einstein), que passou a ser adoptado por sítios improváveis como, por exemplo, a Universidade de Turku na Finlândia.

O que disse o Prof. Marcus, o autor (hoje com 93 anos) da "teoria de Marcus", sobre os trabalhos de Formosinho e colaboradores? Nada! Mas visitou Portugal por duas vezes, em 1986 e 1993, para participar em conferências científicas em Lisboa e no Algarve, mas, apesar de ter convivido de perto com o Prof. Formosinho (inclusivamente foi visita de casa), não trocou com ele quaisquer palavras sobre as teorias em conflito, a não ser umas palavras muito lacónicas de elogio da apresentação feita por Formosinho numa dessas conferências: junto à porta do elevador, disse "Sebastian, I should have said, you were very good". Enfim, dois cientistas que se respeitam ao ponto de não quererem enfrentar directamente o outro com disputas.

Por último, uma palavra sobre o papel da estética em ciência. O belo tem funcionado, em vários ramos da ciência, não apenas como um caminho heurístico mas também como um critério de validação. O poeta Keats disse que "o verdadeiro era o belo" e "o belo era verdadeiro". Em matemática essa equação poética é praticamente indiscutível. E em física, uma disciplina assente na matemática, também. Paul Dirac, o autor da mecânica quântica relativista, escreveu em 1963:
"It seems that if one is working from the point of view of getting beauty in one's equations, and if one has really a sound insight, one is on a sure line of progress. If there is not complete agreement between the results of one's work and experiment, one should not allow oneself to be too discouraged, because the discrepancy may well be due to minor features that are not properly taken into account and that will get cleared up with further development of the theory."
Hoje em dia as teorias de campos, que estão nas fronteiras do nosso conhecimento do universo, baseiam-se no conceito de simetria, um tema eterno da arte. As "teorias de tudo" reclamam ser expoentes da estética. O físico Frank Wilczek (Nobel da Física de 2004) tem um livro muito recente intitulado A Beautiful Question, onde coloca a interrogação: "o mundo é uma obra de arte?". 

O belo é hoje invocado em química e, dado o papel central da química, também em biologia. Além de Jorge Calado,  o químico Roald Hoffmann (Nobel da Química em 1981) tem enfatizado o belo na química, desligando-o da noção de simples. Declarou ele um dia ao New York Times:
"Complexity, not simplicity, is the essence of life. Take two molecules - say, dodecahedrane, a nice, simple, soccer-ball-shaped molecule, which has no use, and hemoglobin, an incredibly convoluted, complex molecule. For me, the hemoglobin is the more beautiful because of, and not despite, its complexity. Its complex form is essential for doing the complex things it has to do.
E o bioquímico americano Arthur Kornerg (Nobel da Medicina em 1959), que é citado por Formosinho em Nos Palcos da Ciência, escreveu: 
"Much of life can be understood in rational terms if expressed in the language of chemistry. It is an international language, a language for all of time, and a language that explains where we came from, what we are, and where the physical world will allow us to go. Chemical language has great esthetic beauty and links the physical sciences to the biological sciences.” 
O livro do Prof. Formosinho termina com um convite para nos curvarmos perante a beleza de um  pôr do Sol, retratado por ele próprio na capa de um livro. O belo está na natureza e, por isso, está na ciência.

sábado, 20 de agosto de 2016

O LEVE ODOR DOS NOVELEIROS


Ângelo Alves, nascido em 1978 em Póvoa da Lomba (Cantanhede)  é co-autor deste blogue. Conheço-o há muitos anos por ter sido meu aluno no curso de Física em Coimbra (formou-se em Ensino da Física). Já na altura era um devoto da boa literatura tendo-me surpreendido com os livros que trazia para a aula. Decerto que tem surpreendido muitos leitores deste blogue com as suas escolhas literárias. Descobriu a certa altura a sua vocação poética, da qual dão testemunho três livros saídos até hoje: Doidivino (Temas Originais, 2012), Falo do Fundo (Papiro, 2014) e o mais recente O Leve Odor dos Noveleiros (Temas Originais, 2015).

O Leve Odor dos Noveleiros  é um pequeno livro que contém 369 haikus, a forma de poesia originária do Japão mas que encontrou grandes cultivadores no mundo ocidental. O mestre tradicional é  Matsuo Bashō (1644–1694), autor do mais famoso haiku, que em português se pode traduzir assim :

velha lagoa . . .
um sapo salta nela
o som da água

Há muitas outras traduções; no original há 17 sílabas, em três frases de cinco, sete e cinco silabas, ou melhor "sons", pois se trata de sílabas japonesas, mas essa estrutura perde-se normalmente na tradução. Por exemplo, Wenceslau de Moraes, que viveu no Japão, traduziu de um modo mais prolixo:


     Um templo, um tanque musgoso
     mudez, apenas cortada
      pelo ruído das rãs
      saltando à água... mais nada


Em Portugal, o haiku foi cultivado, embora por vezes com adaptações, por Eugénio de Andrade. Herberto Hélder, Jorge de Sena, Casimiro de Brito, Albano Martins e José Tolentino de Mendonça. 

Essa forma poética é normalmente utilizada para encapsular um instante, um contacto breve mas emocionalmente intenso entre o poeta e a Natureza. Há uma percepção sensorial imediata e necessariamente subjectiva, É típico existir uma pausa (um corte, por vezes com um sinal gráfico) para justapor ou contrastar duas imagens, sentimentos, ou ideias, por exemplo, no haiku de cima, o salto do sapo na água da lagoa e o som recolhido pelo ouvido. 

Ângelo Alves escreveu haikus literariamente muito expressivos, onde se encontram palavras muito  simples (as palavras mais frequentes são "ar", "sol", "terra", "água", "flor", "amor" e "rosa", mas também palavras pouco usuais como "cabrestante", "arrebol", "terebintina", "abrasão", "acme" (eu aprendi no seu livro palavras novas como "cacófato", "lúteo", "eufrásia", alcaçuz", etc.) Procura seguir o conceito que estrutura o haiku, mas não recorre à  rima, nem anda a medir o número de sílabas. Os temas são os da poesia universal: a Natureza, o eu, o amor, a vida, a morte, etc. Não há a preocupação de ordem temática, pois, tal como a vida, a poesia vai acontecendo. O livro é uma sucessão de 369 instantes, mais do que dias há no ano.

Para que apreciem a beleza dos versos de Ângelo Alves, escolho aqui alguns haikus. Sobre a natureza viva (há outros animais para além dos sapos):

Choro e os pardais
Cantam, no cebolal,
Ao arrebol e à chuva.

A terebintina
Desce pelo corte — a várzea
Aguarda as ovelhas.

O melro abandona
O ninho e é logo velho.
Tirocínio breve.

São agitadores,
Os gritos dos corvos com cio.
Soltam meu silêncio.

Entre escolhos negros,
No mar calmo, deambula
Um camarão lúcido.

O Sol impera, como se vê nos exemplos seguintes:

Ar árido. O sol
Assoma ao mar — e a âncora
Sobe ao cabrestante.

Dia solarengo
E aguardo a trégua da chuva.
Vejo-me, sozinho.

Eu deveria estar
Contigo, dentro de uma noz,
A inalar o sol.

E vejamos quando o amor (ou, pelo menos, a possibilidade dele) aparece ao sol:

Era a praia, quando
Te conheci. Eras o mar
Frio sob o zénite.

Vi-te a acenar
E os músculos dos meus pelos
Abriram o olhar!

Cavalos assombram
O noveleiro. Os teus seios
Galopam no nevoeiro.

O meu coração
Caiu no atrito do teu chão.
Arde, a abrasão!

A névoa humedece
O teu cabelo telúrico —
Carícia inefável.

Gravei o silêncio
Do teu corpo — as ondas do mar
Morriam perto.

Na tua blusa, cor
De alface-do-mar, o sol
Intumesce os cumes.

Os breves instantes,
Em que te vi, foram seis dias
E seis noites na acme.

Espraio o nome
Porque a dor é espinho, é barco
À espera da Rosa.

Mas há também livros, em particular, livros de poesia (o autor é um devorador de poesia e de facto só pode escrever poesia como ele quem leu muita)

Nos livros perenes,
Interno-me. Aí, reina o siso,
Voam pormenores.

Acumulo livros
Dentro do casulo preso
À folha das árvores.

Cresce o meu apego
À poesia — nimbo ou lágrima
Que à noite acalento.

É difícil escolher o melhor haiku dos 369. 369 leitores escolheriam, porventura, outros tantos. Eu escolho este:

Se pudesse rachar
O coração, como se racha
Uma romã, achar-me-ia.

Leiam o Ângelo Alves para escolherem outro...