segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

"Falta transformar o saber em fazer"

Participei num debate sobre ciência e economia na Assembleia da República:

https://www.dinheirovivo.pt/economia/nao-adianta-aumentar-a-despesa-publica-em-inovacao-se-o-estado-continuar-ineficiente/


EX REITOR EXPÕE A SUA ARTE NA UNIVERSIDADE DE AVEIRO


ENTREVISTA DE MARTIN REES NO PÚBLICO


Extracto da entrevista da jornalista Teresa Firmino ao Astrónomo Real Britânico Martin Rees:

TF- O que pensa então do Acordo de Paris? E de Trump querer que os EUA saiam desse acordo?

MR- Penso que a atitude de Trump não faz assim muita diferença. O governador Brown na Califórnia e alguns mayors das grandes cidades apoiam formas de reduzir as emissões de CO2. O Acordo de Paris foi um grande feito: toda a gente prometeu fazer alguma coisa, não quer dizer que façam, mas prometeram. O acordo não tem metas, mas os países declaram o que querem reduzir nas emissões e daqui a cinco anos reúnem-se e revêem isso. É importante manter a dinâmica. Aliás, penso que um desenvolvimento que levou a esse consenso foi a encíclica do Papa [Francisco] em 2015 [intitulada Sobre o Cuidado da Casa Comum], onde disse que tínhamos o dever de defender o ambiente. Foi a primeira declaração clara de um Papa de que os seres humanos têm o dever de preservar o ambiente; de que a natureza tem valor por direito próprio e que devemos preservar o resto da criação tão bem como os seres humanos. Sou um dos conselheiros da Pontifícia Academia das Ciências. Em 2014, tivemos reuniões científicas [sobre o clima e o ambiente], onde estavam funcionários do Papa, e que lançaram algumas das bases científicas quando o Vaticano começou a preparar esta encíclica. O documento é muito bom e eficaz. Teve muita influência na América latina, em África e no Leste da Ásia, onde a Igreja Católica tem os seus milhares de milhões de seguidores, e tornou mais fácil o consenso em Paris. Isto leva-me a pensar que, geralmente, as religiões no mundo podem de facto ter um efeito positivo nestas questões. Independentemente do que pensemos sobre a Igreja Católica, e eu não sou crente, ela tem um alcance global, pensa a longo prazo e quer saber dos pobres no mundo. É por isso que pode ser eficaz. Os políticos normalmente centram-se no curto prazo e em questões locais. Se as religiões conseguem que os seus seguidores pensem sobre o ambiente e o clima, então terão um bom efeito. Além das armas nuclear.

https://www.publico.pt/2018/01/15/ciencia/entrevista/martin-rees-sou-um-optimista-tecnologico-mas-um-pessimista-politico-1799138


“A Ciência e os Seus Inimigos” na Rádio Renascença

Minha participação e de Carlos Fiolhais no programa conversa Q.B. da rádio renascença, onde estivemos à conversa com Carlos Bastos acerca do nosso novo livro "A Ciência e os Seus Inimigos"


“Há quem se oponha e combata a ciência.
Nós vivemos num tempo paradoxal. Por um lado, tudo depende da ciência e da tecnologia.
Por outro lado, em certos sectores, há uma desconfiança na ciência que chega a ser mesmo inimizade. E isso é um paradoxo que nos traz graves problemas.
Como é que vamos conseguir sustentar a nossa actual sociedade se não apoiarmos a ciência? Se não apoiarmos vamos regredir”.

Carlos Fiolhais

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"OS MORTOS FALAM? O PORQUÊ DAS AUTÓPSIAS" POR DUARTE NUNO VIEIRA NO RÓMULO

"Einstein e o Nobel da Física 2017" em Lagos


PS) A gralha "ouvir-lo" não é da minha lavra...

Abriu o Famelab 2018


http://noticias.uc.pt/universo-uc/esta-a-chegar-o-famelab-2018-a-uc-e-uma-das-paragens/

A Física da Terra


Minha crónica na última Gazeta de Física:

No ano de 2017 comemoraram-se os 60 anos de um evento muito marcante da história da física: o Ano Geofísico  Internacional, que se realizou entre 1 de Julho de 1957 e 31 de Dezembro de 1958.  Contrariando o clima da guerra fria, 67 países, incluindo Portugal, uniram esforços para realizar uma série de projectos destinados a conhecer melhor o nosso globo em várias áreas: auroras polares, cartografia de precisão, física da ionosfera, geomagnetismo, gravidade, meteorologia, oceanografia, raios cósmicos, sismologia e actividade solar.

O evento científico mais marcante de 1957 ocorreu a 4 de Outubro com o lançamento pela União Soviética do primeiro satélite artificial, o Sputnik 1. Os Estados Unidos haveriam de responder com o lançamento, a 1 de Fevereiro do ano seguinte, do Explorer I, que descobriu o cinturão de Van Allen, mas já depois do Sputnik 2, em 3 de Novembro de 1957, com a cadela Laika a bordo, ter reforçado a precedência soviética. A NASA foi fundada a 29 de Julho de 1958 nessa fase de arranque da exploração espacial, pelo que vai ficar sexagenária em 2018.

Contudo, também foi marcante nessa ano o estudo da Antárctida. Uma expedição da Royal Society de Londres tinha aí criado a Halley Research Station em 1956, que ainda hoje prossegue sua actividade. Foi na Halley que, em 1985,  foram efectuadas as medidas que conduziram à descoberta do buraco de ozono, um problema em vias de resolução graças ao protocolo de Montreal assinado em 16 de Setembro de 1987  e que foi entretanto ratificado por 196 países. Pela primeira vez na história todos os países do mundo uniram-se para resolver numa base científica uma questão que afectava todo o planeta e, portanto, a humanidade (infelizmente, a questão do aquecimento global não está a ter resposta semelhante). Por sua vez, os americanos criaram em 1957 no pólo Sul a estação de Amundsen-Scott, onde foram sendo montados vários telescópios e instrumentos para observar o fundo cósmico de micro-ondas e os neutrinos que vêm do espaço. A 1 de Dezembro de 1959, na sequência do Ano Geofísico, 12 países assinaram o Tratado da Antárctida (entretanto já são 53, incluindo Portugal), que reconhece essa região como uma reserva científica, banindo qualquer tipo de actividade militar. Um feito notável nos anos da guerra fria, mostrando que a ciência pode ultrapassar divisões nacionais!

Os programas de exploração do espaço e dos pólos continuam hoje em dia, com ampla participação dos físicos de muitos países. Um artigo saído em Dezembro passado na “Science” é bem exemplificativo dos avanços da geofísica moderna, ao juntar as áreas da gravidade e da sismologia, que nos anos 50 estavam separadas. Uma investigação da autoria de físicos franceses e americanos debruçou-se sobre os sinais recolhidos por sismógrafos muito afastados do epicentro do grande terramoto de Tóhoku de 11 de Março de 2011, que destruiu a central nuclear de Fukushima no Japão. A conclusão é muito interessante: sinais de alteração campo gravítico, que se transmite à velocidade da luz, são perceptíveis antes da chegada da onda sísmica, que se espalhou pelo globo a uma velocidade entre 6 a 10 km/s. Não só se consegue através desse sinal determinar com precisão a magnitude do sismo, uma medida difícil para sismos muito intensos (o referido sismo, de magnitude 9,1, foi o quarto maior de sempre, maior, por exemplo, do que o terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, que não está sequer no top ten), como sobretudo permite fornecer um aviso com alguns minutos de avanço relativamente à chegada da onda elástica. A previsão de terramotos continua a desafiar os físicos. Não é disso que se trata mas sim de permitir avisos, ainda que de curto prazo, da eclosão de um terramoto violento. O tsunami associado ao terramoto causou 15894 mortos. Algumas dessas vidas poderiam ter sido poupadas se tivesse havido evacuação rápida das populações residentes nas regiões costeiras ameaçadas.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Comemoração do Dia do Perfil do Aluno - 2

Em continuação....

A ligação online para o Dia do Perfil (o dia destindo a comemorar, a nível nacional, o perfil do aluno à saída do ensino obrigatório) já abre: aqui.

Para a próxima sexta-feira está agendada uma conferência nacional, conferências locais a actividades paralelas.

Passo as conferências e detenho-me nas actividades paralelas: sugestões para as escolas
Cada escola poderá organizar sessões de trabalho relacionadas com o Perfil dos Alunos, como melhor entender. Porém, num modelo ajustável, escola a escola, considera-se ser relevante alicerçar atividades em Assembleias de Alunos, em função do contexto e das condições logísticas. Assim, cada escola deverá adaptar as atividades que abaixo se sugerem, que poderão ser organizadas em três momentos.
Exploro os "momentos" e sou encaminhada para (inevitáveis) "guiões", que são, basicamente, documentos com "sugestões de actividades" elaboradas pela tutela para as escolas, no excrcício da sua autonomia... usarem.

Quem se interesse pelo rumo da educação, pela formação das novas gerações deve dar especial atenção a alguns dos documentos disponibilizados:
- Apresentação para alunos (aqui);
- Guiões de actividades (aqui);
- Documentos de trabalho para alunos (aqui) e professores (aqui).

QUERO! Diz o Estado.

QUERO
Que deixes de fumar
Que uses o cinto de segurança
Que comas legumes
Que não te ponhas ao Sol
Que emagreças
Que garantas a segurança aos teus filhos no banco traseiro
Que fales de questões raciais
Que uses preservativo
Que te ofereças como voluntário
Que comas menos carne vermelha

In Jacques Barzun, 2003, 763 (cartaz do Tio Sam, 1997)

A pouco e pouco, os Estados de países democráticos (não falamos dos outros) têm, por sua iniciativa ou por cedência a pressões várias, instituído o que as pessoas devem pensar, sentir e fazer em questões que são inteiramente da sua esfera de decisão

Isso começa bem cedo, quando se entra no sistema de ensino, na educação de infância, aos três anos, ou no primeiro ciclo, aos seis anos, e acompanha toda a escolaridade. Aos dezoito anos, os jovens adultos saberão o que devem e não devem comer a cada refeição, que não devem fumar, nem beber em demasia, nem consumir qualquer substância que provoque adição, quantas vezes devem lavar os dentes e como o devem fazer, quanto devem poupar do seu dinheiro e onde o devem aplicar, como devem gerir os seus afectos e emoções, aumentar o seu auto-conceito e auto-estima, como conseguem obter sucesso na vida e competir no mercado de trabalho, etc. etc. etc. Serão, enfim, sujeitos exemplares (sujeitos não cidadãos, pois o que dá substância à cidadania é a liberdade de decidir com a responsabilidade que lhe é inerente).

De qualquer maneira, até agora esta determinação estatal tem ficado mais ou menos circunscrita aos currículos escolares, localizada sobretudo na área da "educação para a cidadania" (que o não é), nas designadas "educações para...", que são cada vez em maior número, mais prescritivas e mais intrusivas.

Estão localizadas aí mas não se dirigem apenas às crianças e aos jovens (sem esquecer os adultos escolarizados ou em planos de formação), dirigem-se também às famílias e às comunidades, pois, na perspectiva da "abertura da escola a...", toda a população deverá, através dos alunos, ser instruída na mesma cartilha, na cartilha de uma falsa cidadania.

De qualquer maneira, os Estados confiantes da sua missão de salvar os cidadãos (de si mesmos) de os tornar todos felizes e plenamente realizados, dá mais um passo em frente e passa a legislar noutros contextos além da escola. Começou pelo Serviço Nacional da Saúde mas não há-de ficar por aí...

A este propósito reproduzo abaixo um artigo muito esclarecedor do médico psiquiatra Pedro Afonso, intitulado A proibição dos croquetes nos bares do SNS (aqui)
Num ímpeto reformista, o Estado pretende agora controlar as calorias dos cidadãos, privando-os de pequenos prazeres alimentares. O governo, através de despacho, criou uma série de restrições à venda de produtos alimentares nos bares do SNS, elaborando para o efeito um autêntico Index com os alimentos proibidos: hambúrgueres, cachorros quentes, pizas ou lasanhas, rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau, etc.
Esta iniciativa legislativa é excessiva, infantiliza os portugueses, e tem no seu espírito um fundamentalismo perigoso: obriga a que sejamos todos saudáveis, através do cumprimento de um modelo alimentar.
Com esta imposição o homem fica impedido de usufruir de alguns prazeres alimentares; de tal forma impedido, que deixa de ser humano.
Ora, este paternalismo de Estado conflitua com a liberdade individual. Neste caso, o Estado retira aos cidadãos a liberdade de, num espaço público e sem prejudicar terceiros, comer um croquete ou um pastel de massa folhada.
Vivemos num tempo confuso e repleto de contradições. Alternamos entre um Estado que legisla em nome de um homo indvidualis — que decide o que fazer da sua própria vida, liberto das imposições morais coletivas —, e um Estado que legisla em sentido oposto, publicando uma lista de alimentos proibidos, pondo de parte a liberdade individual.
Afinal em que é que ficamos? Permitimos, em nome da liberdade individual, algumas das pequenas satisfações da vida ou impomos aos portugueses uma verdadeira vida monástica dominada por renúncias alimentares?
Recentemente foram denunciados vários casos de refeições servidas nas escolas a crianças em más condições e sem o mínimo de qualidade. É justamente nestes casos, em que existem interesses económicos e corporativos de empresas do sector, que o Estado tem de intervir e zelar pela alimentação de quem não tem alternativa. Torna-se necessário garantir o mínimo de qualidade das refeições fornecidas às crianças e também nos hospitais aos doentes, pois ambos correspondem a grupos fragilizados.
E poderíamos continuar com mais exemplos, para chegarmos à conclusão de que o Estado perdeu uma certa racionalidade ética. Do meu ponto de vista, aquilo que está aqui em causa não é a necessidade de defender bons hábitos alimentares e a educação da população nesse sentido. Julgo que este aspeto é consensual.
A procura de uma vida saudável através da alimentação, infelizmente já há muito tempo que deixou de ser uma recomendação com bases científicas para se tornar numa autêntica religião com fiéis seguidores.
É preciso denunciar a idolatria da saúde e do bem-estar, o fundamentalismo em redor de uma vida castradora, cheia de hábitos saudáveis, mas que conduz todos os anos milhares de pessoas à depressão (...).
Precisamos urgentemente de mais bom senso na vida social e política.
Não faz mal à saúde comer de vez quando um croquete e um pastel de bacalhau. O que é perigoso são os excessos, sejam eles alimentares ou legislativos. 

ANTENA 2 CIÊNCIA sobre o nosso livro "A ciência e os seus inimigos"

A segunda parte da minha entrevista e de Carlos Fiolhais à Antena 2 Ciência, sobre o nosso novo livro:

https://www.rtp.pt/play/p783/antena2-ciencia

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

MAIS CLÁSSICOS EM LINHA

Os Classica Digitalia têm o gosto de disponibilizar pela primeira vez em Acesso Aberto 5 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra, correspondentes aos títulos publicados na Série "Ideia".

Tal como todos os volumes dos Classica Digitalia, também os livros desta série são editados em formato tradicional de papel e na biblioteca digital (em Acesso Aberto).

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Ideia” [monografias]
Partindo de uma orientação Hermenêutica, no sentido em que tanto a tradição filosófica quanto a abordagem sistemática de temas e problemas são objeto da interpretação atual, a série acolhe obras de diferentes metodologias, temas e perspetivas.

Diogo FerrerTransparências: linguagem e reflexão de Cícero a Pessoa (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2017). 321 p.                                   
Link: https://digitalis.uc.pt/pt-pt/node/119930

[Através das lentes da filosofia, da imagem, da literatura ou do mito, os onze estudos neste livro abordam a auto-transparência reflexiva e linguística humanas, na sua relatividade, virtualidades e perplexidades. É privilegiado o estudo do pensamento do séc. XX, em especial a Fenomenologia e a Filosofia da Linguagem de Husserl, Heidegger e Wittgenstein, remontando-se também a aspetos da Retórica romana (Cícero e Agostinho) e retomando para os debates de hoje elementos estruturantes do pensamento kantiano e do Idealismo Alemão.]

Margarida I. Almeida AmoedoOrtega y Gasset em Lisboa: Tradução e enquadramento de La razón histórica [Curso de 1944] (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2017). 146 p.

[José Ortega y Gasset deu em Lisboa, em 1944, um curso universitário intitulado "La razón histórica". Não obstante ter ficado incompleto, após interrupção por doença do autor, é talvez um dos mais importantes vestígios da sua estada em Portugal, durante a última etapa do seu longo exílio.] 

Maria da Conceição Camps e Mário Santiago de CarvalhoCor, natureza e conhecimento no curso Aristotélico Jesuíta conimbricense (15921606) (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016). 96 p.

[Unificados pelo arco teórico e hermenêutico que liga a física à metafísica, os três temas dos célebres "Comentários do Colégio Conimbricense da Companhia de Jesus" (1592-1606) - cor, natureza e conhecimento - revelam a surpresa da sua modernidade filosófica: sobre o primeiro tema,' evidenciando a insuspeitada ... produtividade da teoria conimbricense, haja em vista a semelhança entre as doutrinas de Manuel de Góis e as de Goethe, a respeito das cores; sobre o segundo tema, estudando as várias aceções de "natureza" e, por isso, promovendo a valorização de uma preponderância estética nos domínios da antropologia, da cosmologia e até da ciência; finalmente, sobre o último tema, demonstrando a inesperada surpresa de uma problemática teológica, a separação do conhecimento, poder comparecer devidamente adaptada na revolução de Descartes.]

Maria Luísa Portocarrero e José Beato (coords.), Ricoeur em Coimbra: Receção filosófica da sua obra (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016). 234 p.

[Por ocasião do centenário do nascimento de Paul Ricoeur, este volume junta tributos em redor de temas que marcaram a receção da obra deste filósofo em Portugal e, especialmente, na Universidade de Coimbra. Cada capítulo demonstra a fecundidade do pensamento de Ricoeur que, enraizado na “tradição reflexiva”, assumindo a mensagem das “filosofias da existência”, articulando Fenomenologia e Hermenêutica, adquire, hoje, crescente relevância. Esta é uma filosofia que promove o diálogo entre disciplinas, autores e culturas e supera divisões teóricas em ordem a enfrentar as exigências da praxis.]

Diogo Ferrer e Luciano Utteich (coords.), Filosofia Transcendental e a sua crítica: Idealismo, fenomenologia, hermenêutica (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015). 398 p.
Link: https://digitalis.uc.pt/pt-pt/content/livro?id=38234

[Se a contemporaneidade filosófica nasceu com a crítica de Kant à Metafísica, o presente volume apresenta uma perspetiva privilegiada da formação da filosofia contemporânea, realizando um percurso multifacetado em torno da ideia do transcendentalismo, que se mantém vivo muito através da diversidade de reações e críticas que suscitou ao longo dos séculos XIX e XX.]

Votos de boas leituras.
(Classica Digitalia) 

Delfim Leão

COMO VEJO O MUNDO


O Professor Adriano Moreira proferiu no dia 6 de Dezembro no Rómulo- Cdentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra uma palestra com o título de cima, que aqui transcrevemos com os devidos agradecimentos ao autor:


A visão solicitada, como testemunho, neste ano de 2017, implica ter presente o que representa o mundo, como memória, na minha lembrança, e ter uma ambição sobre o modelo para o qual a minha escala de valores – o meu eixo da roda aponta. Quanto ao primeiro ponto, tal como esclarece um africanista de origem europeia, que é Agualusa, o tempo é o grande construtor do passado, mas não explica que o imprevisto está sempre à espera de uma oportunidade. Tal função do tempo é reduzida na nossa evolução pelo esquecimento incontrolável, e a visão do mundo futuro, sempre em mudança, sujeito à incapacidade da esperança ser preservada de impedimentos. Com esta convicção da nossa debilidade, começarei por afirmar que o valor principal para o qual gostaria que a evolução fosse orientada, é a regra de que o mundo é “a casa comum dos homens”. E assim procurarei apontar algumas das circunstâncias atuais, que implantaram a incerteza na esperança. Em primeiro lugar porém, começo por lembrar o primeiro dos obstáculos a transpor, o qual tem referência bíblica no castigo infligido aos que intentaram construir a Torre de Babel, tal como vem descrito na Bíblia Sagrada: “em toda a Terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras… Depois disseram: vamos construir uma cidade e uma Torre, cujo cimo atinja os céus… O Senhor porém disse… Se principiarem dessa maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros”. O resultado, para apenas referirmos este século XXI, foi que a não compreensão implicou um trajeto, por vezes milenário, de confrontos culturais, étnicos, religiosos, que implicaram identificações pelos mitos raciais, negação da igual dignidade dos homens, divisões regionais por fronteiras, organizações políticas competitivas, uma história com períodos sanguinários frequentes, com os que seriam chamados ocidentais, estes a avançarem no domínio da ciência e da técnica, mas também da hegemonia e superior riqueza, sem que isso impedisse que os seus próprios conflitos armados também marcassem a luta interna pela hegemonia. O século XX talvez possa ser considerado o ponto alto de referência para a meditação do futuro: primeiro pelo avanço científico e técnico que avançou até à ambição de criar a inteligência artificial, festejada com fausto e regozijo no Portugal de hoje; este festejo não enunciou, mas não conseguiu esconder que se propunha para o futuro uma ciência sem consciência; deste modo ferindo o recurso a uma “lei internacional”, função atribuída à meditação de Bentham (1780), um pensamento que inclui as cogitações de Aquino, Grotius, Pufendorf, Vattel, e Kant, todos procurando ultrapassar a punição da Torre de Babel, legitimando uma jurisdição internacional, no século XX, depois de duas Guerras Mundiais, que finalmente levou à criação da ONU, e ao paradigma do “Mundo Único” como premissa do estatuto da organização, e à Declaração de Direitos do Homem, tudo escrito por ocidentais. Mas se as duas guerras conduziram a esta organização, também incluíram os efeitos colaterais: que o Ocidente perderia o domínio do Império Colonial Euromundista, e com ele a posse das matérias primas, o controlo dos mercados dos produtos acabados, e o terrível poder de estabelecer o regime do trabalho, que incluiu a escravidão, o trabalho forçado, o indigenato, o salário, e a privação dos direitos da cidadania. A criação da ONU implicou a aurora de um novo futuro sonhado, mas foi surpreendida pela voz livre das áreas culturais libertadas, pela primeira vez na história da Humanidade, confrontando na Assembleia Geral a cultura ocidental plasmada no texto, e colocando a ONU na presidência de um Mundo de Ruturas. Durante meio século a Ordem Internacional da ONU foi limitada e constrangida pela Ordem dos Pactos Militares – NATO e VARSÓVIA –, pelo confronto das ideologias – democracia e sovietismo –, pelo processo que, no antigo chamado Terceiro Mundo, de facto adotou o modelo do Estado Extrativo, que era uma nova versão interna do Poder Colonial expulso: a Europa, antiga “Luz do Mundo”, a interrogar-se sobre se o projeto da União tem futuro, sem conceito estratégico e hesitante entre a União ou a Federação, atingida pela crise económica e social que fez reduzir a protetorado os países pobres do Sul – Grécia, Chipre, Itália, Espanha, Portugal, com as liberdades de circulação, o progresso científico, a criatividade, não conseguindo capacidade de enfrentar com êxito a perda de ligação e confiança entre os eleitorados, e os governos dos Estados membros com a instituição globalizante, mostrando o todo dominado pelo fenómeno da inidentidade, que o progresso do Estado Espetáculo, do emaranhado dos meios de comunicação, implica que seja a criada imagem dos dirigentes que se apresenta ao voto, e não a autenticidade visível de homens como foram os dirigentes vitoriosos da II Guerra Mundial, os fundadores da União que esqueceram os sacrifícios a favor de uma solidariedade futura, o turbilhão muçulmano com a consequência da anarquia mortífera das migrações: o resultado visível, não só no Ocidente, é o renascimento da Memória do passado, (Alemanha, Reino Unido, China, Rússia) como solução para os efeitos negativos da situação na sua definição particular de interesses, os “micronacionalismos” (Espanha, Itália, Reino Unido), o enfraquecimento da solidariedade atlântica com o lema “America First”; e, quanto à hierarquia das potências, que afeta o também pressuposto da ONU que é o do “mundo único”, isto é, sem guerras, a questão do “Desafio dos Emergentes”. Neste preocupante aspeto do mundo em que vivemos, é evidente a diferença de conteúdo da palavra “soberania” que foi dominante no período do domínio ocidental. Critério dominante na questão da sempre presente hierarquia das potências, começou por ter como fator dominante de referência, a capacidade militar de responder com êxito às tentativas exteriores contra o interesse dos Estados, ou apoio vitorioso da expansão do mesmo Estado. A evolução levou a que, sem perda, como veremos, da capacidade militar, fatores como a ciência, a técnica, a cultura, implicassem com o conteúdo diferenciado da tal soberania, e portanto com a alteração da hierarquia das potências. Deste modo, ao contrário do imaginado a Norte por homens como Churchill, (que l’Europe se léve), os chefes dos governos antes adversários, guiados pelo saber de Jean Monnet, e no antigo Terceiro Mundo, por idealistas ativos como Gandhi e Mandela, verdadeiramente tocados de santidade, o mundo de 2017 é um “Mundo de Ruturas”, e, ao contrário de “mundo único”, isto é sem guerras, é um mundo de incertezas, em que se destacaram, para além de uma espécie de “outono ocidental”, com os EUA a perderem o fulgor de “Casa no alto da Coluna”, o projeto francês da Euráfrica anulado por um Mediterrânio transformado num cemitério, a guerra do Cabo ao Cairo envolvendo umas trezentas ou quatrocentas mil crianças, com o Sudão a servir de referência, e a crise Europeia e Ocidental, com todas as facetas que já indiquei, com o avanço da técnica e da ciência sem consciência, com presença terrível na rutura da paz, desafiando quer a hierarquia das potências, esta com a evolução que mencionei, mas a provocar as “guerras em toda a parte”, expressão usada por analistas da estratégia militar. Com um primeiro lugar para a evolução do “terrorismo”, que antes da guerra de 1914-1918, tinha em vistas as lideranças políticas para desafiar os regimes detestados, e, depois da guerra de 1939-1945, se transformaram num “terrorismo” que ataca a sociedade civil, sobretudo invocando valores religiosos maometanos, para destruir a vida habitual, e a confiança na estrutura do Estado, conseguindo a “vitória do fraco contra o forte” como o primeiro exemplo aterrador no ataque às torres de Nova York. Confere-se isto com a série de atentados que antecederam ou acompanharam o ambiente da Guerra de 1914-1918.

O Conselho de Segurança foi, na estrutura acordada para a ONU, o organismo consagrador da desigualdade dos Estados, pela criação do direito de veto, numa data em que o poder militar era o critério da hierarquia. Não faltaram motivos para a intervenção do Conselho, até, como aconteceu com a tentativa vetada de dois membros desse Conselho, com tal privilegiado direito, a França e a Inglaterra, impedirem a nacionalização do Suez pelo jovem Nasser, dirigente do Egito. Mas nesta data em que, em ritmo crescente, as iniciativas do governo de Pyongyang, que teve a última exibição com o lançamento do míssil que atingiu a zona económica exclusiva do Japão, não parece inquietar o Conselho de Segurança, que parece ter esquecido o comentário de Bismark, demonstradamente validado por duas guerras mundiais, de que “qualquer coisa insensata leva a uma guerra devastadora da Europa”, com a diferença de que agora trata-se da devastação do mundo. Que o Ocidente, a viver uma época de outono, seja considerado pelo antigo “terceiro mundo” como o maior agressor dos tempos modernos, tem outras advertências, como a agressividade com que o Presidente Macron foi recebido em Burkina Faso, quando parecia dar passos para ressuscitar a ideia francesa do século passado, que pareceu esperançosa para os interesses da Europa, e para apaziguar a memória do colonialismo, quando recebeu o nome de Euráfrica. Neste caso não chegou a humildade das palavras de Macron afirmando, na sua “prova oral africana” como a imprensa a assinalou, que “os crimes da colonização europeia são incontáveis”, salvaguardando embora que “também se fizeram grandes coisas e houve histórias felizes”, para amenizar a hostilidade. Mas este facto não é apenas sintoma de que ainda há muito trabalho a desenvolver para que a confiança reciproca apoie uma nova época de cooperação amiga, com esquecimento possível dos agravos: também acentua que a agressividade orientadora do governo da Coreia do Norte tem pelo menos salpicos de eventual apoio no antigo “terceiro Mundo”. E tais ensaios não podem ser bem contestados, e sobretudo contidos, pelos modelos de resposta do atual Presidente dos EUA. A consistência dos repetidos ensaios da Coreia do Norte, reveladores de que está suficientemente habilitada no sentido de conduzir à catástrofe mundial, não dispensam que a leviandade verbal das respostas, mal dirigidas a uma suposta recetividade e pacificação mal prevista do adversário inquietante, seja substituída pela meditação séria, concertada, e autêntica, que é dever do Conselho de Segurança, quando não são ocasionais interesses de cada membro que estão em causa, é até mais do que a ordem jurídica mundial: é sim a eventual suficiência de “qualquer coisa insensata” para desencadear um conflito de dimensões que nenhuma experiência histórica permite avaliar. No fim da segunda guerra mundial, bastou uma intervenção de Churchill – “que a Europa se levante” – para desencadear o movimento que, chamado pelos resultados “guerra fria”, evitou o pior. Mas a ausência de resposta do Conselho de Segurança, talvez atingido pela diminuição da capacidade da ONU para ser escutada, e seguramente porque a desorganização da governança do globalismo dificulta a conjugação de esforços para uma resposta de pacificação ou defesa mundial, aponta para facilitar o desastre sem precedente. Mas seguramente com destruições que ameaçam serem irreparáveis. Perante estes riscos, não pode, qualquer que seja a orientação do governo, haver governo atento e responsável ao qual passe despercebido que as palavras, mesmo cuidadas, são alternadamente perigosas ou animadoras de esperança. A primeira via é a que aparece mais evidente neste diálogo de irreconciliáveis, situação de incidentes crescentes, com uma passividade excessivamente abrangente de vozes que deviam ser ouvidas, tendo por exemplo a autenticidade e clareza da intervenção de Spaak, no plenário da ONU, quando o ambiente já exigia o que depois, com limitação da liberdade da organização, teria o nome de guerra fria durante meio século. Nesta data, o pessimismo, com fundamento, parece presidir a uma guerra surda, que ameaça justificar a mudança semântica que se verificou quando se passou a servir por números, e não por nomes, as duas guerras mundiais do século passado, como se estivesse anunciada uma série a definir-se com improbabilidade de precisão. Porque as palavras também podem ser poderosas no sentido de servir os valores do humanismo, que inspirou os princípios das Declarações de Direitos, seria tempo de finalmente por em vigor a Declaração Universal de Deveres Humanos, proposta do Inter-Action Council, em 1 de Setembro de 1997, e que continua por aprovar, animando o Conselho de Segurança a intervir com solidariedade geral, porque é o futuro de todos que está ameaçado, não são os interesses de poderes isolados no entendimento do que é a essência do poder de governar em globalismo.

O mais inquietante é o avanço, tão celebrado em Lisboa neste ano de 2017, do progresso e do enunciado papel da inteligência artificial. Trata-se do avanço de uma atitude que talvez possa ter o seu ponto de primeira afirmação na descoberta da utilização militar da energia atómica. Lembre-se que o grupo científico encarregado pelo governo dos EUA de estudar a questão, logo depois do primeiro ensaio com êxito na Califórnia, avisou o governo de que tal poder não poderia ser usado por qualquer Estado. Indiferente ao aviso, os EUA foram o primeiro, e até agora único, Estado a ter experiência de que a posse da Bomba apaga a relutância de a usar: o Japão ficará para sempre com o símbolo do desastre que hoje enfrenta a humanidade: a dispersão da posse desse poder, hoje sempre em evidência pelo comportamento reciproco dos EUA e da Coreia do Norte, isto é, do Ocidente a entrar no seu Outono, e o antigo Terceiro Mundo a ameaçar a Ordem definida pelos ocidentais que fundaram a ONU, mostra que pela primeira vez na História da Humanidade, dois homens afetados de “moral insenity”, podem destruir o pequeno planeta em que nos aconteceu viver. Um facto que torna uma evidência sem reserva, que se agrava, com o entusiasmo pela inteligência artificial, o domínio da ciência sem consciência. Por isso, escritores como Yuval Noah Harari, no seu Homo Deus (História Breve do Amanha – 2015) sugerem que caminhamos para uma “Religião dos Dados”, escrevendo: “o Dataismo afirma que o Universo consiste em fluxos de dados e que o valor de qualquer fenómeno ou entidade é determinado pela sua contribuição para o processamento de dados. Esta poderá parecer-lhes uma noção excêntrica e marginal, mas a verdade é que já conquistou uma grande parte do sistema científico. “Desta forma, o Dataismo derruba as barreiras entre animais e máquinas e espera que os algoritmos eletrónicos acabem por decifrar e obter um desempenho superior ao dos algoritmos bioquímicos”. O que significa o desaparecimento da relação da ciência com a consciência, que presidiu ao desenvolvimento do que chamamos a nossa cultura, a uma defesa da dignidade do homem, a “terra casa comum dos homens”, o “mundo único”. Saber que esta é a circunstância de risco em que nos encontramos neste ano de 2017, talvez tenha sido aprendido pela própria ONU, que por cinco vezes chamou o Bispo de Roma, Papa da Igreja Católica, a falar à Assembleia Geral. Primeiro Paulo VI, que ali pregou que o desenvolvimento sustentado é o novo nome da paz, depois por duas vezes o Santo João Paulo II o pregador contra o sovietismo, depois o Papa Emérito que ali pediu o regresso à autenticidade dos princípios, e finalmente Francisco, o Bispo de Roma que foram procurar no fim do mundo. Este disse, em 1 de Janeiro de 2017, na Mensagem para o 50.º Dia Mundial da Paz: “A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinados a fins militares e subtraídos às exigências do dia a dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra. No fim dos casos, pode levar à morte física e espiritual de muitos, se não mesmo de todos”. Vejo por isso o mundo numa circunstância de exigência de mobilização para repor a via de uma ciência com consciência, para que as humanidades, tão enfraquecidas de apoio nas próprias Universidades e Academias, mantenham a dignidade igual dos homens e mulheres como o eixo da roda que nos conduz, ainda na incerteza da origem e da duração da vida “na terra casa comum dos homens”.

ADRIANO MOREIRA
Presidente do Instituto de Altos Estudos
da Academia das Ciências de Lisboa
Professor Emérito
da Universidade Técnica de Lisboa

Universidade de Coimbra

06/12/2017

Manuel de Azevedo Fortes e a formação de Engenheiros em Portugal

Início da introdução (expurgada das notas) de Décio Martins ao "Primeiro tratado de engenharia", um volume das "Obras Pioneiras da Cultura portuguesa" que acaba de sair no Círculo de Leitores: 

Manuel de Azevedo Fortes foi um “estrangeirado” que recebeu a sua formação em França sob a influência do desenvolvimento científico e técnico que marcou o iluminismo europeu. Regressado a Portugal, integrou o círculo do Conde de Ericeira, participando nas Conferências Discretas e Eruditas, destacando-se pelo conhecimento e divulgação das novas ideias então difundidas na Europa. Era filho ilegítimo de um nobre Francês, Monsieur Lembrancour, que serviu na Corte de Lisboa. 

Nascido em Lisboa, em 1660, Manuel de Azevedo Fortes teve a sua formação académica em Espanha e França. Em Madrid ingressou no Colégio Imperial quando tinha a idade de 12 anos, prosseguindo depois os seus estudos da Filosofia na Universidade de Alcalá de Henares. A sua formação em Filosofia Experimental e Matemática teve lugar em França no Colégio de Plessis-Sorbone, um prestigiado colégio universitário fundado em 1317 por Geoffroy Du Plessis-Balisson e que em 1646 foi unido à Sorbone. Foi neste contexto que Azevedo Fortes se familiarizou com as ideias de Copérnico, Galileu, Descartes, Gassendi, Malebranche, Newton e de muitos outros filósofos modernos então estudados nas mais prestigiadas escolas da Europa. Seguiu-se um período em Itália, onde foi professor de Filosofia na Universidade de Siena. Após três anos nesta Universidade, tendo-lhe sido solicitado a sua continuidade neste cargo pelo governador da cidade, Francisco Maria de Medici, irmão do Grão-Duque de Toscânia, Fortes aceitou permanecer na Itália por mais três anos, tendo no entanto que regressar a Portugal por falecimento do seu pai.
(...)
O percurso do engenheiro Manuel de Azevedo Fortes
Em 1695 encontrava-se em Portugal. Frequentando os círculos intelectuais de Lisboa, notabilizou-se pelas suas conferências públicas, merecendo a admiração de D. Pedro II. Conquistou a notoriedade no meio académico português como matemático e como engenheiro. Foi nomeado lente substituto na cadeira de matemática na Aula de Fortificação e Arquitetura Militar, escola criada em 1647 que, posteriormente, em 1707 viria a ser designada Academia Militar da Corte. Manteve a sua função docente na Aula de Fortificação pelo menos até 1701. Além do ensino na Aula de Fortificação e da atividade de engenheiro, a carreira de Azevedo Fortes foi muito diversificada, incluindo a assistência técnica a fortificações, participação em campanhas militares, bem como de funções governativas.
 Em 18 de fevereiro de 1698 foi nomeado pela Junta dos Três Estados, examinador dos discípulos da Academia e, em de setembro de 1698, foi nomeado capitão-engenheiro. Além da atividade académica e de engenheiro, destaque-se a importância da sua atividade como militar. No ano de 1701 procedeu à verificação dos locais para descarga dos lastros dos navios estrangeiros em Setúbal. Em 1702, passou a ser capitão de Infantaria com aplicação de engenheiro, além de manter o cargo de lente substituto na Aula de Fortificação, sendo posteriormente nomeado para o cargo de sargento-mor. Em Coimbra, no ano de 1702 supervisionou as obras do encanamento do Mondego, sendo também encarregue de fazer uma carta da cidade, e visitou as fábricas de fundições de artilharia em Tomar, Figueiró dos Vinhos e Foz de Alge. No dia 10 de outubro de 1703 foi emitida a ordem do Conselho de Guerra para que Fortes, ainda capitão-engenheiro, partisse para o Alentejo para participar nas campanhas da guerra contra Espanha, embora o decreto seja de 10 de dezembro desse ano. Neste novo cargo, até 1704 passou a dar assistência às obras das ruínas de algumas fortificações de algumas praças militares. Trabalhou na condução dos regimentos holandeses à vila de Abrantes e província da Beira, e teria inclusivamente feito uma incursão para examinar as fortificações de Badajoz. Posteriormente, o Conselho de Guerra nomeou-o Tenente-de-Mestre-de-Campo-General na Província do Alentejo a 19 de Fevereiro de 1705, recebendo a patente de coronel de Infantaria no ano de 1708. A partir de 11 de fevereiro de 1705 exerceu o cargo governador de Castelo de Vide, procedeu a obras na fortaleza, onde se manteve até 1719, tendo sido nomeado engenheiro-mor do reino em 18 de outubro de 1719, recebendo também a patente de brigadeiro de Infantaria do Exército, postos que manteve até 1735. No dia 20 de Novembro de 1705 recebeu o hábito de Christo, como cavaleiro noviço, tendo sido armado cavaleiro na capela dos paços da Ribeira ou na igreja da Nossa Senhora da Conceição. Já como governador de Castelo de Vide, em 1709 deslocou-se com um destacamento de infantaria e cavalaria e uma companhia de mineiros para demolir o Castelo de Valência de Alcântara. Sob a sua orientação, em 1734, foram reedificadas as ruínas da Praça de Campo Maior. Numa da Carta do Conselho de Guerra, escrita ao sargento-mor de Batalha, João Jacinto Lopes Tavares da Costa, governador das Armas da Província da Beira, é feita a referência a várias questões relacionadas com Manuel de Azevedo Fortes, a quem teria sido atribuída a construção de quatro armazéns de pólvora, nas praças de Elvas, Campo Maior, Olivença e Estremoz, bem como dos terraplanos das praças de Juromenha e Arronches e de delinear uma nova praça na vila da Zibreira[.
A Academia de História Portuguesa pretendeu lançar-se num levantamento dos pontos geográficos para ilustração de uma obra a publicar. Para o efeito foram solicitados os serviços do P.e Manuel de Campos e de Azevedo Fortes. A história da geografia da antiga Lusitânia foi atribuída a Manuel de Campos, ficando Azevedo Fortes encarregue da geografia moderna e da “Fábrica das Cartas Geográficas”. Para a concretização do seu trabalho, Fortes investigou os arquivos das cartas geográficas dos bispados, constatando que nunca haviam sido traçadas. O Mappa del Reino de Portugal, feito por Pedro Teixeira, no ano de 1662, embora considerado por Azevedo Fortes como o mais correto, era defeituoso em algumas regiões. O seu projeto seria levantar uma nova carta de Portugal. Tratava-se de um empreendimento considerado avultoso e de difícil concretização por D. Rodrigo Anes de Sá e Almeida, Marquês de Abrantes. A falta de apoios necessários comprometeu a sua realização. No entanto, a Academia de História editou, em 1722, o Tratado do modo o mais fácil e o mais exacto de fazer as cartas geográficas, assim de terra como do mar, e tirar as plantas das praças, cidades e edifícios com instrumentos e sem instrumentos, tendo sido aprovado pelo Conde de Ericeira e pelo Conde de Monsanto, e obtido as seis licenças do Santo Ofício. Neste trabalho, Azevedo Fortes referiu-se ao desenvolvimento da Geografia na Europa, fazendo alusão a Ptolomeu, Mercator, Hortelius, Du Val, de Sanson, Telemont, Canteli, Coroneli, Dufes e Del’Isle.
Em 1734, embora já com limitações físicas, Azevedo Fortes continuava no exercício das suas obrigações. Pelo facto da firmeza das mãos o condicionar na tarefa que fazer todas as assinaturas que lhe impunha o seu cargo, foi autorizado por D. João V a usar a chancela, conforme a autorização declarada.
Azevedo Fortes, de quem Garcão-Stockler escreveu uma nota biográfica no seu Ensaio historico sobre a origem e progresssos das mathematicas em Portugal, faleceu em 28 de março de 1749, deixando legado à Misericórdia de Lisboa para na véspera da Anunciação de Nossa Senhora se distribuir roupa branca pelas enfermarias do hospital de Todos os Santos. 

Décio Ruivo Martins
CFisUC, Departamento de Física, Universidade de Coimbra. 3004-516 Coimbra, Portugal


ANTENA 2 CIÊNCIA: Esperanças e probabilidades para 2018, com Carlos Fiolhais e David

A minha participação e de Carlos Fiolhais no programa Antena 2 Ciência, emitido no primeiro dia do ano:

https://www.rtp.pt/play/p783/antena2-ciencia

ESCRAVATURA, O GENOCÍDIO OCULTADO

Texto de Guilherme Valente, publicado no último número do Expresso:



"A mão treme quando evocamos os crimes cometidos pelos Árabes, enquanto  o inventário dos crimes cometidos pelos Europeus, igualmente condenáveis, ocupa páginas inteiras.
Marc Ferro, 1942

A captura pelo Daesch de milhares de yezidis e cristãos deu visibilidade à escravatura e ao tráfico que prosseguiram  larvares p. ex. na Arábia Saudita, no Quatar e Emiratos. Como revelou a CNN na Líbia, o fenómeno migratório actual segue as rotas do comércio histórico de escravos. 

Iniciado em 652, esse tráfico árabe-muçulmano atingiu 17 milhões de vitimas, mortas ou castradas, durante treze séculos sem interrupção, ultrapassando em quantidade e crueldade o tráfico depois alargado ao Atlântico pelos Europeus.

Nem mesmo a conversão ao islão que interditava a escravidão dos convertidos - o islão tem o melhor e o seu contrário... -  impediu o horror. Na peregrinação a Meca muitos fiéis eram raptados e revendidos por mercadores ricos.

A ocultação dessa página dolorosa ainda não totalmente virada da história dos povos africanos põe em foco um livro de 2008 então significativamente ignorado: Le génocide voilé, do historiador franco-senegalês T. N'Diayde*. 

Escreve o Autor: "Civilizações com milhares de anos foram devastadas por razias sanguinárias. Impérios inteiros destruídos, como os do Gana no século XI pelos Almorávidas vindos do Marrocos e da Andaluzia. Apoiados por aventureiros europeus, chegaram ao coração do continente, até à actual Tanzânia e ao Congo, comprando a cumplicidade de soberanos locais". Tráfico que começou quando o abastecimento na Europa Oriental e Central escasseou ("escravo" vem de "eslavo").

Quando Portugal chegou posteriormente a esse tráfico africano, dadas as suas limitações de penetração no interior do Continente, foi mais comprador que captor.

E porquê a ocultação e minimização desse tráfico árabe-muçulmano? Porque esqueceram os descendentes das vitimas esse horror e se unem agora aos descendentes dos carrascos?

É que hoje a maior parte da África sahariana tornou-se de religião muçulmana e a fraternidade religiosa uniu-se no interesse comum de ocultar aquele verdadeiro genocídio. Interesse com que converge num logro mutuo a esquerda radical (e mesmo uma esquerda ignorante sem rumo nem  memória). 

Num lado, o ressentimento face ao sucesso das sociedades ocidentais, o alibi da vitimização que faz dos "brancos" bode expiatório  para o bloqueamento contrastante das sociedades africanas e islâmicas, para a ocultação da responsabilidade própria na tragédia Africana e do Médio Oriente.

No outro lado, o ressentimento face ao  triunfo do pensamento liberal e das sociedades abertas de uma esquerda radical órfã das grandes narrativas e causas históricas e incapaz de identificar novas causas sociais que emergem. Resultante de sucessivos abalos sísmicos: a recorrentemente  falhada  profecia de Marx, Lenine, Estaline, a URSS, a China e o seu sucesso capitalista.

Continuando a cultivar a pulsão da intolerância totalitária que lhe está na  natureza, o que hoje pode fazer é provocar a maior obstrução e barragem políticas possíveis**. E vê no Islão a única força capaz de abalar o mundo ocidental. A chantagem da  "islamofobia" ***, o  encorajamento da  vitimização dos Africanos, o paternalismo perverso, são  instrumentos para combater os adversários de sempre: o capitalismo, a sociedade aberta, a liberdade.

Não retirando a responsabilidade histórica que cabe aos  Europeus, o  livro  O Genocídio Ocultado  repõe a verdade histórica e mostra que a escravatura não é um crime por qualquer estranha razão inerente ao homem "branco".

A escravatura é  um crime que fere a humanidade. A Europa não a  inventou, mas inventou a sua abolição. Aguarda-se que todo o mundo islâmico-muçulmano  e africano siga o exemplo. E peça desculpas!? Não, desculpas só os "brancos"... por serem superiores na consciência, na moral, na humanidade? NÃO! 

Quanto à mundivisão totalitária da  esquerda (ou da direita) radical, é como a psicanálise, interminável.

Guilherme Valente
___________
NOTAS

* Ver  Pascal Bruckner (Le Point, Novnuma nota  de leitura que  divulgo prescindindo de  aspas. (Para os amantes da BD, recordo Tintim, Carvão no Porão.)

** Entre nós com particularidades próprias da realidade política que só há cá.

 *** É imperativo distinguir o islão radical assassino, do islão pacífico vitima el do islão iluminista perseguido implacavelmente. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Comemoração do Dia do Perfil do Aluno - 1

No passado dia 2 de Janeiro o Ministério da Educação, através da Direcção-Geral da Educação, enviou às escolas uma carta onde prestou esclarecimentos sobre a comemoração do Dia do Perfil do Aluno, a ter lugar treze dias depois, ou seja, no dia próximo dia 15.

Esta iniciativa tem a colaboração da Federação Nacional de Associações de Estudantes dos Ensinos Básico e Secundário.

Um dia inteiro para, esclarece, pôr o país a reflectir sobre a implementação desse perfil. A ideia é
... mobilizar diversas vozes influentes da sociedade civil portuguesa e a comunidade educativa alargada (professores, alunos, encarregados de educação, autarcas, etc.) num amplo debate sobre como pode cada escola organizar-se para concretizar o “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória”. 
Enquanto as escolas desenvolvem "actividades"
"que permitam ouvir e considerar as vozes daqueles que habitam a escola diariamente e de outros que, de uma forma ou outra, participam na educação dos jovens"
 realiza-se, em Lisboa, uma conferência nacional a ser difundida via internet.

O Ministério disponibiliza (num sítio a que não se consegue aceder) outras informações relativas ao "programa, sugestões de atividades e documentos de apoio".

E mais nada consegui encontrar além do programa para o tal dia de duas escolas - colégios - que... logo fechei!

"Claro que é necessário estudar!"

O segundo capítulo do livro O pavilhão dos cancerosos, do escritor russo Alexandre Soljenitsine, tem por título "A instrução não torna ninguém mais esperto". Aí surge um diálogo entre dois homens provavelmente sem futuro mas com um doloroso e infindável presente: Kostoglotov, o entusiasta de Geometria que não conseguiu terminar o ensino superior por ter sido recrutado para a Segunda Grande Guerra, e jovem Dioma, que tudo o que mais queria na sua incerta vida era estudar. Trata-se de um diálogo que interroga o sentido da educação escolar, o que devemos fazer constantemente, mas que não retira o seu valor.
- Vou tentar ler um pouco mais - disse Dioma -, enquanto ainda tenho tempo. Gostaria de entrar na universidade-
- Isso é excelente. Mas lembra-te de que a instrução não torna ninguém mais esperto.
(Que lucrava em falar de tal maneira? E a um garoto?)
- Não torna ninguém mais esperto? Que quer dizer?
- O que disse.
- Então o que nos torna mais espertos?
- A vida
Dioma ficou calado, uns momentos, e por fim redarguiu:
- Não concordo.
- Na nossa unidade havia um comissário chamado Pachkin, que costumava dizer: «A instrução não torna ninguém mais esperto. Nem o posto. Colocam-nos mais uma estrela no ombro e pensamos logo que somos mais espertos, mas não somos.
- Quer dizer que não é necessário estudar? Não concordo.
- Claro que é necessário estudar! Mas lembra-te, para teu próprio bem
Referência: Soljenitsine, A. (1974, 6.ª edição). O pavilhão dos cancerosos. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp. 32-33.

A CIÊNCIA NÃO É SÓ DOS CIENTISTAS

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



A ciência não é só dos cientistas. A ciência é de todos os cidadãos. Mas, para que todos possamos ter acesso à ciência desenvolvida pelos cientistas, é necessário a mediação de divulgadores e comunicadores de ciência.
Martin Rees, astrofísico de renome mundial, é um dos incontornáveis divulgadores de ciência do nosso tempo. Astrónomo Real da Grã-Bretanha e ex-presidente da Royal Society de Londres (a mais antiga sociedade científica do mundo), Rees escreveu vários livros de divulgação científica entre os quais o popular “O Nosso Habitat Cósmico”, publicado em Portugal pela Gradiva.
Em Outubro passado, a Gradiva publicou na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta” mais uma obra de Martin Rees: “Para o Infinito – Horizontes da Ciência”. Parece-me pertinente transcrever aqui o início da introdução deste livro: “A ciência está a interferir mais do que nunca nas nossas vidas. Muitos assuntos políticos fulcrais – energia, saúde, ambiente, etc. – têm uma dimensão científica. Na verdade, as escolhas que os nossos governos fizerem nas próximas décadas podem determinar o futuro da Terra. O século XXI é o primeiro na História da Terra em que uma espécie, a nossa, tem o poder de determinar o destino de toda a biosfera. A ciência não é apenas para os cientistas: as decisões sobre o modo como ela é aplicada devem resultar de um debate público alargado. Mas, para que isso aconteça, todos nós devemos ter uma «ideia» dos conceitos-chave da ciência. Além da sua importância prática, estes conceitos devem ser parte da nossa cultura comum. Os grandes conceitos da ciência  – ou, pelo menos, umas «luzes» destes – podem ser transmitidos através de termos não técnicos e imagens simples.”
Com uma linguagem muito acessível, ajudada por uma boa tradução do original inglês para o português feita por Maria de Fátima Carmo, Martin Rees apresenta-nos neste livro vários aspectos da relação entre a ciência, os cientistas, os políticos, o público em geral, entre outros assuntos como seja o do próprio futuro da ciência. O livro é composto por quatro capítulos que resultaram da transcrição de igual número de palestras, incluídas nas populares Palestras Reith da BBC inglesa, que o autor concebeu e que foram proferidas em 2010. O seu conteúdo continua actual e muito pertinente. Os quatro capítulos são: O Cidadão Científico; Sobreviver ao Século; O Que Nunca Saberemos; Um Mundo em Fuga. Cada um ocupa cerca de trinta páginas, que preenchem bons momentos de leitura sobre assuntos que nos dizem respeito a todos. Reflexões lúcidas sobre problemas que estão na agenda do nosso mundo actual, como sejam o aquecimento global, ou o impacto da internet na nossa sociedade. Os quatro capítulos podem ler-se independentemente um dos outros, pelo que a curiosidade do leitor guiará a sua leitura.
Como escreve Martin Rees, a ciência, para além de nos permitir ter noções que sustentam opiniões próprias sobre os maiores desafios da humanidade, é uma fonte de prazer e de maravilhamento para toda a gente. Assim também é com a leitura deste livro que aconselho a todos.


António Piedade