quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas


Artigo de David Marçal e Carlos Fiolhais saído hoje no Pùblico: 

Foi publicada no dia 9 de Fevereiro no Diário da República uma portaria (45/2018) que regula os requisitos das licenciaturas em medicina tradicional chinesa. É mais uma peça de uma avalanche legislativa que começou em 2003 e que ganhou particular dinamismo a partir de 2013, no governo de Passos Coelho. O que esta legislação faz é colmatar a falta de provas científicas de eficácia e segurança de várias terapias alternativas, da homeopatia à medicina tradicional chinesa, substituindo-a por portarias e decretos-leis. Permite aos terapeutas alternativos pendurarem nas paredes dos seus consultórios cédulas profissionais passadas pela Administração Central de Saúde, o que induz o público no erro de pensar que estas têm fundamentação científica. Mas estão longe de a ter. Tem inteira razão a Ordem dos Médicos, que publicou um vigoroso protesto.

A medicina tradicional chinesa assenta numa filosofia pré-científica. Também existe uma medicina ocidental antiga, que não é científica. Cinco séculos antes de Cristo o grego Hipócrates defendeu a teoria dos quatro humores corporais: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Para o romano Galeno, no século II, que acreditava na teoria de Hipócrates, havia dois tipos de doentes: os curáveis e os incuráveis. Os curáveis, dizia ele, curava-os a todos, enquanto os incuráveis morriam todos. Nos séculos XVI e XVII, Hipócrates e Galeno começaram a ser postos em xeque. Com o surgimento da ciência moderna, baseada na observação, na experiência e no raciocínio, derrubou-se a ideia de que a validade do conhecimento assenta na sua antiguidade. No domínio da geografia, apurou-se, logo no século XV, que muito do conhecimento clássico estava pura e simplesmente errado. Para Aristóteles as regiões equatoriais eram demasiado quentes para serem habitáveis, mas as viagens dos portugueses, que passaram o equador em 1475, mostraram que Aristóteles estava equivocado (já agora, Aristóteles também não acertou no número de dentes da mulher, decerto porque nunca pediu à sua para abrir a boca!). Galileu escreveu, em 1615, que tinha descoberto, com o seu telescópio, factos inteiramente contrários às convicções dos filósofos e que, por isso, eles deviam mudar de opinião.

Já no século XX foi ultrapassado o paradigma do médico guru, cujo conhecimento emanava da sua personalidade e da sua experiência, que não podia ser questionado. A moderna medicina, baseada nas provas, assenta numa ideia muito simples: deve ser avaliada a eficácia e a segurança de todos os tratamentos usando métodos estatísticos seguros. Uma afirmação não é verdadeira porque pessoas muito importantes a defendem ou porque está escrita em livros muito antigos, mas sim porque é provada. Existe uma hierarquia de provas, em que no nível mais baixo está a publicação de um caso clínico (que nada prova) e no mais alto as revisões sistemáticas da literatura médica, que retiram conclusões de todos os ensaios clínicos bem feitos acerca de um determinado tratamento. É por causa da medicina baseada na ciência que hoje vivemos mais e melhor.

Os terapeutas alternativos, quando se vêem confrontados com os maus resultados das suas práticas, invocam, tal como Galeno, uma aplicabilidade retrospectiva, restringindo-a aos casos em que aparentemente resultaram. Alguns deles, pretendendo ser mais sofisticados, alegam que também têm provas, socorrendo-se de uns poucos ensaios clínicos, escolhidos a dedo, por vezes mal feitos, e ignorando todos os outros. Mas, se estão mesmo convencidos de que é verdade aquilo que afirmam, aqui fica o desafio: abdiquem de todos os regimes de excepção e aceitem aprovar os tratamentos alternativos com a mesma exigência que é necessária para introduzir medicamentos ou tratamentos normais no mercado. Podem não gostar, mas isso é a medicina científica. O problema é que, se o aceitassem, seria obviamente o fim das suas terapias alternativas. Pois como se chama uma medicina alternativa que provou ser segura e eficaz? Simplesmente medicina.


A recente portaria das licenciaturas em medicina tradicional chinesa usa uma linguagem pré-científica que não corresponde ao entendimento actual dos seres vivos. Fala de coisas misteriosas como yin e yang, qi, ramificações jing lu, síndromes dos zang fu, nas quatro camadas e nos três aquecedores. Por redução ao absurdo poderíamos dizer que essas coisas existem porque constam da portaria 45/2018. Ora isto não faz qualquer sentido: é a ciência que deve informar o poder político e não o contrário.

David Marçal e Carlos Fiolhais

Il(e)iteracia científica: um caso de estudo


Artigo recebido da jornalista Vera Novais (Observador):

Il(e)iteracia científica: um caso de estudo

Querer conclusões definitivas e não as incertezas da Ciência

Sabia os riscos que corria quando decidi escrever sobre os impactos que o consumo de leite
tinha na saúde. E rapidamente decidi que não iria falar nem com aqueles que são contra o
consumo de leite, nem com os profissionais que dependem da venda deste produto. Assumi, e
assumo, que neste caso (como em outros) não tinha de ouvir dois lados da questão, tinha de
ouvir apenas um: o lado da Ciência. Esta foi uma das críticas que recebi: imparcialidade. Mas
não foi a única.

Escolhi profissionais ligados à saúde ou à academia, sem qualquer relação com a indústria do
leite e que, à partida, me dariam respostas isentas e baseadas nos conhecimentos científicos
mais atuais. Continuo confiante de que assim o fizeram. Escolhendo como fontes estes
profissionais de áreas distintas, deixei aberta a possibilidade de a informação dada ser
divergente ou mesmo contraditória. Mas isso não aconteceu. O que me deixa também um
pouco mais segura em relação ao trabalho que produzi.

Para não ficar só com a informação dada pelas minhas fontes, tentei procurar fontes
alternativas, mas confesso que tive alguma dificuldade em separar o que era realmente
credível do que aparentava ser. Walter Willet, por exemplo, foi um nome recorrente nas minhas
pesquisas, mas as suas declarações não eram, no entanto, compatíveis com a informação que
tinha recolhido junto das minhas fontes. Quem estaria errado (se é que alguém o estava): as
minhas fontes ou o professor e investigador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade
de Harvard? O peso da instituição ecoava na minha cabeça, ao mesmo tempo que a minha
campainha de alerta-contra-figuras-de-autoridade disparava.

As declarações proferidas pelo professor, que o site da faculdade classifica como “o
nutricionista mais citado internacionalmente”, pareciam-me extremadas e as conclusões,
tiradas dos artigos científicos, parciais. Mas o que sei eu? Ele é professor em Harvard. Não
conseguindo garantir que não havia aqui algum enviesamento por parte deste investigador,
fiquei-me pelas conclusões dos artigos de revisão e meta-análises que consultei.
Outra das condições que assumi quando decidi escrever o texto era que me ia focar no impacto
na saúde. Nada digo sobre os impactos ambientais da produção de leite ou sobre o bem estar
animal que leva muitas pessoas a optar por não beber leite. Não que o tema não me interesse,
apenas não era o meu foco. Não queria escrever sobre as questões que levam uma pessoa a
deixar de beber leite — porque uma pessoa pode e deve fazê-lo se assim o entender —, mas
sobre as alegações de saúde que são feitas para incentivar ou demonizar o consumo de leite.
Querer conclusões definitivas e não as incertezas da Ciência

Um texto que mexe com ódios e paixões acaba por também fazer mexer os dedos e não tardou
a que os comentários começassem a chegar. Sobre quem argumenta que não bebe leite por
questões ambientais ou éticas nada tenho a dizer, porque a decisão de cada um só a si
pertence. Lembro, apenas, que esse não era o foco do artigo. Mas outros comentários
demonstraram que ainda há conceitos de Ciência que não estão bem presentes na cabeça das
pessoas. A começar pelos fatores que tornam algumas conclusões mais robustas do que
outras.

Li todos os comentários (que já ultrapassaram uma centena e meia). Alguns mereceram um
sorriso, outros um encolher de os ombros, mas pelo menos um deles deixou-me de olhos
postos no ecrã, incrédula sobre o que estava a ler. Aí nasceu a necessidade de escrever este
texto. O leitor criticava ferozmente o facto de eu ter escolhido médicos e nutricionistas no papel
de especialistas de alimentação e saúde, mas não era o primeiro a dizer a tratar as minhas
fontes como “supostos especialistas”. O que mais me marcou foi a interrogação do
comentador: como é que eu podia informar os leitores corretamente se me limitava a dizer para
que situações havia evidência científica ou não.

Aceito que “evidência” pode não ser a melhor tradução para “evidence”, em inglês, mas
certamente que “prova” não será uma melhor tradução no contexto de resultados científicos.
Fiquei sem saber exatamente como é que o leitor queria que fosse apresentada uma
informação correta se esta não fosse baseada nas evidências científicas. Mas fiquei com uma
pista. O leitor fazia referência a Harvard — talvez uma alusão à universidade de Walter Willet
—, o sítio onde se apresentam conclusões, não evidências.

Faz-me pensar que as pessoas não lidam bem com as incertezas da ciência e com a evolução
dos conhecimentos científicos. Querem afirmações definitivas. Mas, curiosamente, também
acham que o jornalismo só é bom jornalismo quando ouve as duas partes — mesmo que
essas duas partes sejam ciência versus pseudo-ciência, como alertava um dos leitores.
Assumo que em muitos temas pode não haver consenso científico, mas quando se pretende
debater resultados científicos não faz sentido dar voz a quem “acredita” e quem “não acredita”.
E alguns dos leitores não acreditam, nem nos resultados científicos, nem nos médicos, nem
nos académicos. As minhas fontes e os artigos científicos citados foram menosprezados e
minimizados por alguns desses leitores, que depois me sugeriam como leituras e fontes
alternativas, ou como prova daquilo que me diziam, documentários tendenciosos, sites
duvidosos ou até as alterações do cardápio de uma universidade.

As pessoas não lidam bem com as informações que contradizem as crenças que têm e
atacam-nas como podem, incluindo (como não poderia deixar de ser) com teorias da
conspiração. A acusação é os artigos de revisão e meta-análises são pagos pela indústria do
leite para manipular a opinião pública.

Alguns dos leitores tinham a lição melhor estudada e citavam referências retiradas do site
PubMed, uma base de dados para publicações na área da biomedicina e ciências da vida. Uma
base de dados que as minhas fontes também usam. Mas o facto de estar alojado numa
plataforma dos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos não lhe confere validade acima
de qualquer dúvida.

Mais, alguns dos exemplos citados também não concluem aquilo que os seus leitores
desejavam que concluísse. “Os povos que mais leite bebem são os que mais sofrem de
osteoporose” ou “nos países onde o consumo de leite é mais baixo a longevidade é maior”.
Ainda que esta associação até possa ser feita ou até possa ser válida (só vendo o estudo para
o afirmar com certeza), há que lembrar que associação não é causalidade e que estes
trabalhos não provam que é o consumo (ou não consumo) de leite que tem consequências
diretas na saúde. Aliás, alguns dos artigos citados referiam isso mesmo, mas esta é uma parte
que os comentadores do meu texto escolheram não referir nas suas argumentações.
Outras vezes o argumento foi bem mais simples como: “Deixei de beber leite e sinto-me muito
melhor”. Ou “eu, a minha família e amigos”, para aumentar a amostragem. Sim, há pessoas
que são intolerantes ao leite. Não, um exemplo de uma pessoa não serve para todas as
pessoas. E sim, todas as pessoas são livres de beber ou não beber leite se assim o
entenderem.

Felizmente, nem todos os comentários são maus e há quem veja Ciência, evidências e
equilíbrio onde se pretendia que eles existissem. Estes são os leitores que espero que
continuem a escrutinar o meu trabalho e que me alertem se alguma vez me virem desviar da
rota.

Vera Novais

Referência:

O leite faz mal ou é um alimento obrigatório? Fomos ver o que diz a ciência:

"COSMOS" - MInha recomendação para o Plano Nacional de Leitura

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"Terapias, Energias e Algumas Fantasias"


Acaba de ser publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos o livro da colecção  
"Retratos" da autoria de João Villalobos sobre práticas pseudo-científicas com o título de cima. O autor pediu a mim e ao Davida Marçal um depoimento sobre um estudo que defende a eficácia do reiki. Eis o excerto do livro que contém o nosso parecer:

"Entre 2007 e 2009, a enfermeira aposentada e reikiana Zilda Alarcão conduziu um projeto de investigação no Hospital de S. João do Porto, intitulado O Impacto da Terapia de Reiki na Qualidade de Vida dos Doentes Hemato-Oncológicos”, no qual participaram 100 pacientes, divididos em dois grupos, um integrando doentes submetidos àquela terapia complementar e os restantes num grupo de controle. Ou, na terminologia da autora, Reiki verdadeiro” e Reiki placebo”. Mais tarde, um research paper foi publicado no European Journal of Integrative Medicine, em 2015, mas o estudo teve eco na comunicação social portuguesa na altura inicial da divulgação dos seus resultados, em 2011. De acordo com as notícias de então: A investigação comprovou que os pacientes que recebiam Reiki duas vezes por semana tinham maior qualidade de vida do que os que não eram tratados com esta terapia” e as conclusões do estudo e a vontade dos doentes levaram a que a administração aprovasse a continuação da aplicação da terapia por profissionais de saúde, em regime de voluntariado, no hospital”. Para Zilda Alarcão, então citada, O terapeuta, ao permitir que a energia flua no ser humano irá diminuir a ansiedade, o sofrimento, a dor, a fadiga e todos os estados de dependência física. Favorece os sentimentos positivos, o sono e repouso, a concentração e aprendizagem e valoriza a autoestima”. Por seu lado, Fátima Ferreira, hematologista no mesmo hospital e à época presidente da Associação de Apoio aos Doentes com Leucemia e Linfoma, declarou à Agência Lusa, no decurso de uma mesa-redonda sobre o tema Contributo da medicina holística no tratamento dos doentes hemato-oncológicos Reiki, uma resposta credível” que os doentes que se submeteram a esta terapia complementar conseguiram ultrapassar melhor do que os outros os aspetos, quer fisiológicos quer psíquicos, da situação em si”. Fátima Ferreira referiu ainda que estudos efetuados demonstraram que os ratos com cancro submetidos a Reiki obtiveram também uma melhoria da imunidade celular”. Como tal, considerou que existem algumas evidências científicas experimentais que nos dizem que o Reiki pode ser benéfico. Tudo isto ainda não está cem por cento experimentado, mas há evidências nesse sentido e há o testemunho dos doentes”.

Após uma análise conjunta do mencionado research paper, e respondendo a uma solicitação do autor deste livro, os cientistas e ensaístas Carlos Fiolhais e David Marçal teceram severas críticas ao seu conteúdo. Concluem os investigadores que se trata apenas de um ensaio clínico com uma amostra bastante pequena (total de 100 pacientes). Independentemente dos seus resultados, nunca seria, por si só, suficiente para tirar qualquer conclusão substancial acerca da eficácia de um tratamento. Existem muitos artigos científicos que estão, pura e simplesmente, errados, não necessariamente por má-fé, mas sim por insuficiências metodológicas ou outros erros involuntários. Para se ter confiança na eficácia e segurança de qualquer tratamento é preciso muito mais do que um ensaio clínico com uma amostra de 100 pacientes. São precisos vários, de preferência realizados por grupos de investigação independentes, com amostras bem maiores. Têm de ter uma certa qualidade metodológica e ser analisados conjuntamente em revisões sistemáticas da literatura médica e meta-análises de dados”

Segundo ambos os cientistas: O artigo aqui discutido está muito longe, ‘a anos-luz’, de, por si só, justificar a eficácia do tratamento descrito. Num contexto de medicina baseada na ciência não basta, por si só, para fazer aprovar pelas autoridades de saúde um tratamento de medicina convencional. Além disso, o artigo foi publicado numa revista especializada em combinar medicinas alternativas com medicina convencional, que tem um factor de impacto de apenas 0,769. Isto significa que cada artigo publicado nesta revista é citado, em média, menos do que uma vez. Ou seja, é uma revista não muito influente na comunidade científica. Mais do que isso: uma revista sem grande credibilidade. Boa parte da bibliografia citada no artigo, e que apoia as suas ideias centrais, é também publicada em revistas “de nicho” das terapias alternativas (Complementary Therapies in Clinical Practice, Holistic Nursing Practice)”

Quanto às cura pela imposição das mãos, Fiolhais e Marçal consideram que A introdução do artigo menciona um processo de healing (cura). Neste processo, as mãos do curandeiro são colocadas a alguns centímetros do corpo do paciente, de modo a ‘harmonizar o bem-estar físico, emocional, mental e espiritual’. Este conceito, apesar de ser sustentado com uma serie de citações de revistas no campo, repetimos um campo “de nicho”, das teorias alternativas, não passa de uma ideia da medicina pré-científica. Mas não nos cabe a nós demonstrar a sua inexistência. A ciência funciona ao contrário, cabe aos seus proponentes apresentar provas da sua existência”.

De facto, os seres humanos e os outros seres vivos são ‘máquinas eléctricas’, isto é, são feitos de partículas carregadas, muitas delas em movimento (como no sistema nervoso), existindo naturalmente campos eléctricos e magnéticos, de fraca intensidade, em volta dessas cargas. Por exemplo, o corpo humano é emissor de ondas infravermelhas (o corpo é quente!). Mas a afirmação de que os órgãos pulsam a certas frequências’ carece de conteúdo: não indica que órgãos e que frequências. E, de resto, não há qualquer associação provada entre mudanças de frequências de órgãos, seja lá o que isto for, e doenças desses órgãos. Muitos defensores de medicinas alternativas falam de energia e até de aura em torno do corpo humano, mas usam palavras da física fora do contexto para designar conceitos, ou vazios ou, quando concretos, bem conhecidos. O Reiki, por exemplo, usa e abusa da palavra energia, mas quase nunca indica quantidades de energia. Ora a energia é uma grandeza física que pode ser medida: a unidade no SI é o ‘Joule’ e não encontramos valores nessa ou noutra unidade em escritos sobre o Reiki. Os campos electromagnéticos também têm unidades, que também nunca são referidas. Tudo é apresentado de uma forma vaga”.

 Mais ainda, consideram que O estudo não é de facto duplamente cego, uma vez que os terapeutas sabem que estão a fazer Reiki ou Sham Reiki, ao contrário do que afirmam os autores. A abordagem é aparentemente inspirada na que é usada para fazer ensaios clínicos de acupunctura, em que são usadas agulhas retrácteis que simulam a inserção na pele. Parece à primeira vista razoável, no caso de as pessoas que avaliam a condição clínica do paciente não saberem em que grupo estão os pacientes. Neste caso, trata-se de uma auto-avaliação, feita através das respostas dos pacientes a um conjunto de questionários acerca da sua percepção de qualidade de vida.

Mas o que é Sham Reiki? Ao contrário do método correspondente usado pela acupunctura, bem descrito na literatura, os autores nada esclarecem sobre o Sham Reiki. Apenas dizem que as sessões de Reiki são aplicadas por ‘Mestres Reiki’ e que as sessões de Sham Reiki são realizadas por pessoas sem qualquer formação em Reiki. Não sabemos, por exemplo, se os mesmos procedimentos são aplicados nos dois tipos de sessões, se os imitadores de Reiki de alguma forma simulam todos os procedimentos dos ‘Mestres Reiki’. De uma certa forma, o que se está a comparar é o efeito de um grupo de ‘curandeiros’ com um outro grupo, mal definido, sendo que um dos grupos é presumivelmente bem mais experiente e convincente do que o outro naquilo que está a fazer. Mesmo que haja uma diferença significativa neste ensaio na percepção de bem-estar dos pacientes nos dois grupos, isso pode simplesmente dever-se ao facto de os Mestres Reiki serem mais eficazes a induzirem uma sensação de bem-estar nos pacientes, e não a qualquer outra explicação do domínio mais esotérico. Ou seja, está-se a comparar um efeito placebo com outro. E sabe-se bem que os placebos não são todos iguais.

Os autores referem que o hospital onde trabalham, face aos resultados do estudo que apresentam, resolveu incorporar o Reiki na sua oferta terapêutica. Esta decisão, face à literatura publicada (incluindo o estudo aqui discutido), não tem qualquer fundamento científico e parece inadequada. O facto de um hospital adoptar um tratamento sem fundamento científico não é prova de que esse fundamento exista. É do senso comum que as pessoas se sentem melhor se se sentirem mais cuidadas e tiverem mais atenção. Mas isso não significa que a ‘magia’ do Reiki funcione. É natural que portadores de uma doença grave sejam particularmente sensíveis a cuidados que recebem, qualquer que seja o tipo desses contactos”, concluem os cientistas no seu parecer."

João Villalobos

Que validade científica tem o "mindfulness"? - 2

Texto na continuação de dois outros: É mais fácil e mais barato responsabilizar o indivíduo e Que validade científica tem o "mindfulness"?

Mão amiga fez-me chegar um artigo de grande interesse publicado em 2014 com o título Meditation Programs for Psychological Stress and Well-being A Systematic Review and Meta­analysis

Imagem encontrada aqui
Os seus autores (investigadores de departamentos de medicina, de pediatria, de psiquiatria e de politicas e gestão da saúde de universidades americanas conceituadas) começam por dizer o que já sabemos: que muitas pessoas meditam para reduzir o stress psicológico e os problemas de saúde relacionado com o stress.

Mas para aconselhar quem precisa, os clínicos têm de saber, a partir de evidências científicas, quais são os benefícios efectivos dos programas de meditação.

Têm de saber, em concreto, se esses programas melhoram ou não a qualidade de vida, a saúde mental, o humor, a atenção, o sono; se reduzem ou não a ansiedade, a depressão, a angústia, a dor, o peso; se mudam ou não hábitos alimentares e consumos...

Recorrendo à metodologia de meta-análise, começaram por reunir dezenas de trabalhos sobre os efeitos do mindfulness (ou atenção plena) publicados, até novembro de 2012, em revistas que integram bases de dados confiáveis.

Esses trabalhos, na ordem das dezenas, em que se dá conta de intervenções realizadas com milhares de participantes, e que usaram amostras aleatórias com controlo do efeito placebo, foram explorados por dois revisores independentes a partir de quatro aspectos: risco de enviesamento, precisão, sinceridade e consistência.

Muito resumidamente, apuraram que os programas de meditação têm pequenas e moderadas vantagens no tratamento do stress psicológico:
- apresentaram evidência moderada na melhoria da ansiedade e da depressão; e reduzida evidência na melhoria do stress, dor e qualidade de vida;
- apresentaram reduzida evidência na melhoria do humor positivo, da atenção, do uso de substâncias, dos hábitos alimentares, do sono e do peso;
- não apresentaram evidência de que sejam melhores do que tratamentos convencionais (por exemplo, medicamentos, exercícios e terapias comportamentais). 
Os autores, recomendam aos clínicos a importância de terem em conta estes dados. Além disso, reconhecem a necessidade de se realizarem estudos mais amplos a aprofundados para determinar os efeitos dos programas de meditação na melhoria da saúde mental.

"António Gião: o físico de Reguengos de Monsaraz que se correspondeu com Einstein": minha palestra no Observatório do Alqueva


http://olagoalqueva.pt/events/cafe-ciencia-giao-20180317/

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

PARA ALÉM DOS OMBROS DE GIGANTES


Congresso Internacional Repensar Portugal, a Europa e a Globalização: 100 Anos Padre Manuel Antunes, sj,

Informação recebida no DRN:

A Câmara Municipal da Sertã, a Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização, sediada na Universidade Aberta, o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes, em cooperação com outras instituições científicas e culturais nacionais e internacionais, vão promover, com ampla projeção, nos dias 3, 4, 5 e 6 de novembro, o Congresso Internacional Repensar Portugal, a Europa e a Globalização: 100 Anos Padre Manuel Antunes, sj, a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian e na Casa da Cultura da Sertã.

O presente Congresso faz parte de um conjunto de iniciativas que assinalarão o Centenário Antunesiano e que ajudarão a refletir criticamente a cultura portuguesa, em articulação com as culturas europeias e os grandes desafios da globalização, tendo como pano de fundo o Pensamento e a Obra do Padre Manuel Antunes (1918-2018).

Para mais informações, consulte-se o cartaz e documento em anexo.

Convidamos à presença e à participação. Agradecemos ampla divulgação.

A Comissão Organizadora.
Congresso Internacional Repensar Portugal, a Europa e a Globalização
100 Anos Padre Manuel Antunes, sj
(00351) 96 99 777 02




Padre Manuel Antunes, sj

por José Eduardo Franco


O Padre Manuel Antunes (1918-1985) foi um mestre excepcional que marcou para toda a vida milhares de estudantes que, ao longo de mais de um quarto de século, passaram pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua memória continua viva e a iluminar o caminho de quantos o conheceram, ouviram e leram.
Nos tempos difíceis que a sociedade atravessa, parece de elementar bom senso o regresso ao silêncio criador em que se possam escutar palavras de sabedoria que nos ajudem a redescobrir os valores fundamentais e a “Repensar Portugal”. Neste contexto, a atualidade de Manuel Antunes, em vez de nos fixar no passado irremediavelmente desaparecido, deve reconfortar a nossa vontade de futuro, apetrechando-a com o sentido das coisas essenciais, tão facilmente corroído pelo acessório e pela sedução do superficial.
De entre os créditos associados à memória do mestre notável, contam-se o perfil de humanista, a escuta atenta dos sinais dos tempos, a disponibilidade para ouvir o outro e compreender as diferenças, a procura do essencial na floresta do efémero, o espírito de tolerância, a opção pelo que aproxima e une em vez do que pode afastar e dividir, o gosto do universal cultivado no conhecimento do singular, a arte da síntese que não despreza a paciência da análise nem o enraizamento concreto, a consciência de cidadania vivida com responsabilidade e vigilância. Estes são alguns dos muitos traços que fazem do percurso intelectual e cívico de Manuel Antunes uma referência de cultura, que a sociedade portuguesa não pode perder de vista se quiser manter a sua identidade e vencer a batalha do futuro.
-- 
Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes (IECCPMA)
Praceta João XXI, 17, 1.º esq. | 2775-511 Carcavelos
T.: 96 99 777 02 | ieccpma@gmail.com

Online em www.iecc-pma.eu

Sobre João Jacinto Magalhães, o português mais famoso da Royal Society

Como foi descoberto o ADN?


Na próxima 3ª feira, 20 de Fevereiro, pelas 18:00h, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, uma palestra proferida pelo Professor José Teixeira Dias, professor emérito da Universuide de Aveiro e investigador da Universidade de Coimbra, intitulada "Como foi descoberto o ADN".

 RESUMO: 

Nesta palestra, é apresentada um pouco da história da ciência que conduziu à descoberta do ADN, porventura a descoberta científica de maior impacto no passado, presente e futuro das ciências da vida. O método experimental (difração de raios-X) usado para confirmar a estrutura do ADN é apresentado e a simulação ótica deste método é ilustrada permitindo “compreender” como foi possível chegar à estrutura hoje conhecida.

ENTRADA LIVRE 

Natália Nunes, (1921-2018) : Bibliografia na Universidade de Coimbra



Atrás de uma grande mulher está sempre um grande homem. Atrás da escritora Natália Nunes, que faleceu recentemente com 96 anos, estava Rómulo de Carvalho, seu marido. A estreia literária de Natália Nunes dá-se quando reside em Coimbra, sendo o marido professor de Física e Química no Liceu D. João III. O poeta António Gedeão nasceu em 1956, tendo o verdadeiro autor escondido o seu nome sob pseudónimo. Pediu ao editor da Atlântida para enviar o livro a Natália e perguntou-lhe, curioso, o que achhava (de início, nem a mulher sabia quem era Gedeão). Mas Natália Nunes estreou-se antes de Gedeão: em 1955 publicou o romance "Autobiografia de uma mulher romântica". Eis a lista dos livros da escritora existentes nas bibliotecas da Universidade de Coimbra (não se incluem traduções de autores como por exemplo Dostoievsky e Balzac):

Autobiografia de uma mulher romântica : romance - Lisboa : Sociedade de Expansão Cultural, 1955.

A mosca verde e outros contos. - Coimbra : [s.n.], 1956.

Regresso ao caos : romance. - Fundão : Jornal do Fundão, 1960.

Assembleia de mulheres : romance. - [Lisboa] : Portugália, [1964?]

A bastarda. - [Lisboa] : Portugália Editora, 1966.

Está morta e Coração débil. - Lisboa : O Livro de Bolso, 1966.

Jamais. - Lisboa : Portugália Editora, 1966.

Ao menos um hipopótamo  ; desenhos de Lima de Freitas. - Lisboa : Estudios Cor, 1967.

O caso de Zulmira L. - Lisboa : Atlântida, 1967.

Tecnicidade e realidade [Mimeog.] : condições concretas de trabalho nas bibliotecas e arquivos portugueses /  - Porto : Biblioteca Pública Municipal, 1968.

Informação histórica a colher nos livros de registo paroquial : II secção. III Encontro dos Bibliotecários e Arquivistas Portugueses, Porto : Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1968. 

O problema da transliteração dos caracteres do alfabeto russo para o alfabeto português : I secção. Porto : Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1968.  6 f.  III Encontro dos Bibliotecários e Arquivistas Portugueses.

Cabeça de abóbora. - Lisboa : Distribuição Quadrante, 1970.

A nuvem : estória de amor. - Lisboa : Sociedade de Expansão Cultural, 1970.

As batalhas que nós perdemos : interpretações literárias . - Porto : Liv.Paisagem, 1973.

Confrarias, irmandades, mordomias : inventário de uma colecção de Livros de Registo Paroquial existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo... - Lisboa : Associação Portuguesa dos Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, 1976.

Memórias da escola antiga  - 1ª ed. - Lisboa : Didáctica, 1981.

As velhas senhoras e outros contos  - Lisboa : Relógio d'Água, cop. 1992

A ressurreição das florestas  - Lisboa : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, imp. 1997.

Vénus turbulenta : romance  - Lisboa : Relógio d'Água, cop. 1997. 

Dia nacional da cultura científica : colectânea de estudos históricos de Rómulo de Carvalho / com  Fátima Nunes. - Évora : Universidade, D.L. 1999

No catálogo da Biblioteca Nacional de Portugal existem mais títulos.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Um debate sobre a educação escolar à escala mundial

Na coluna de opinião do jornal Público de anteontem, foi publicado um texto assinado pelo grupo de consultores do Projeto da OCDE Future of Education and Skills 2030, a saber: João Costa, Secretário de Estado da Educação, Portugal; Suzanne Dillon, Subinspectora-geral, Departamento de Educação e Competências, Irlanda; Kan Hiroshi Suzuki, Consultor Executivo do Ministério da Educação, Desporto, Cultura, Ciência e Tecnologia, Japão; Moonhee Kim, Ministra, Delegação Permanente da República da Coreia na OCDE, Coreia do Sul; Jørn Skovsgaard, Conselheiro Sénior de Educação, Ministério da Educação, Dinamarca. Assina também "em colaboração com a OCDE" Andreas Schleicher, Director de Educação, OCDE

O texto intitulado Educação para um mundo melhor: um debate em curso a uma escala global deve ser lido com a maior atenção por todos aqueles que têm responsabilidades directas na educação escolar, em especial os professores e os directores. Aí se explica o rumo que foi, há muito, traçado para essa educação, ainda que só em tempos mais recentes se tenha dado conta efectiva dele.
"Estamos todos convidados a perguntar qual o melhor modelo de aprendizagem que ajudará os alunos a ter sucesso no desenho do mundo sobre o qual agirão.
Enfrentamos hoje desafios sem precedentes — sociais, económicos e ambientais — provocados por uma globalização em aceleração e por um muito mais rápido desenvolvimento tecnológico. Paralelamente, estas forças conferem uma miríade de novas oportunidades para o desenvolvimento humano. O futuro é incerto e não o conseguimos predizer; mas é preciso estar disponível e preparado para esse futuro. 
As crianças que entram nos sistemas educativos em 2018 serão jovens adultos em 2030. As escolas têm de os preparar para empregos que ainda não foram criados, para tecnologias que não foram ainda inventadas, para resolver problemas que ainda não foram antecipados. Aproveitar oportunidades e encontrar soluções será uma responsabilidade partilhada. 
Temos a responsabilidade de educar estas crianças, tornando-as competentes, equipadas com o conhecimento, as capacidades, as atitudes e os valores que os tornam capazes de ser os construtores de um futuro melhor. 
Estamos todos convidados a perguntar qual o melhor modelo de aprendizagem que ajudará os alunos a ter sucesso no desenho do mundo sobre o qual agirão.  
Através do projeto da OCDE O futuro da educação e competências 2030, 29 países e economias estão a colaborar para a encontrar perguntas para duas perguntas prementes:
- De que tipo de conhecimentos, capacidades, atitudes e valores vão necessitar os estudantes para ter sucesso e modelar o seu mundo? 
- Como podem os sistemas educativos desenvolver esse conjunto de competências? 
O projeto não procura estabelecer uma abordagem uniforme para os sistemas educativos, porque isso não ajudaria a responder a estas questões. Pelo contrário, fornece uma plataforma para o desenvolvimento de uma compreensão partilhada sobre desenho curricular. 
Estudantes preparados para o futuro precisam de ser agentes ativos quer na sua própria educação, quer na sua própria vida. Ser agente implica um sentido de responsabilidade para participar no mundo e, assim, influenciar pessoas, eventos e circunstâncias para o que é melhor. Ser agente assenta no poder de modelar um propósito e identificar ações para o conseguir. 
Uma educação de sucesso prepara jovens que pensam por si só e trabalham e vivem com os outros. Isto implica desenvolver a capacidade de resolver problemas complexos, de questionar a sabedoria estabelecida, integrando conhecimento emergente, de comunicar eficientemente e de promover o bem-estar. 
Os jovens precisam do conhecimento que é adquirido sem o recurso único a rotinas de memorização. Formas múltiplas de avaliação, metodologias ativas de ensino e aprendizagem, trabalho interdisciplinar, trazendo o mundo real para dentro da sala de aula — estes são ingredientes nucleares para este objetivo de promover uma aprendizagem melhor e mais profunda. 
A partir das Competências Chave (desenvolvidas no projeto OCDE DeSeCO – Definição e Seleção de Competências), o projeto Educação 2030 identificou três categorias adicionais, conhecidas como Competências Transformadoras:- Criar novos valores: é necessário pensar criativamente, desenvolver novos produtos e serviços, novos empregos, novos processos e métodos, novas formas de pensar e viver, novas empresas, novos setores, novos modelos de negócio e novos modelos sociais. Cada vez mais, a inovação não emerge de indivíduos que pensam e trabalham sozinhos, mas da cooperação e colaboração que permitir criar novo conhecimento a partir do conhecimento existente. - Reconciliar tensões e dilemas: é hoje necessário pensar de forma mais integrada para impedir conclusões prematuras e reconhecer interconexões. Num mundo de interdependência e conflito, os indivíduos assegurarão com sucesso o seu bem-estar, o das suas famílias e das suas comunidades, somente através do desenvolvimento desta segunda competência transformadora: a capacidade de reconciliar os seus próprios objetivos com as perspetivas dos outros.- Assumir responsabilidade: lidar com a novidade, a mudança, a diversidade e a ambiguidade assume que os indivíduos podem pensar autonomamente e trabalhar com os outros. De igual modo, a criatividade e a resolução de problemas requer a capacidade para considerar as consequências futuras das ações de cada um, para avaliar risco e recompensa, e para aceitar a responsabilização pelos produtos do trabalho desenvolvido. Isto sugere um sentido de responsabilidade, e maturidade moral e intelectual, com a qual uma pessoa pode refletir sobre as suas ações e avaliá-las à luz das suas experiências e dos objetivos pessoais e da sociedade, à luz dos que lhes foi ensinado e dito, e à luz dos que está certo ou errado. 
Muitos atores são chamados a desempenhar um papel para que estas competências possam ser desenvolvidas. Para ajudar a desenvolver o compromisso e a capacidade de ser agente naqueles que aprendem, precisamos não só de reconhecer a sua diversidade individual e o seu potencial, mas também de reconhecer que o conjunto mais largo de relações que influenciam a sua aprendizagem — com os seus professores, os seus colegas, famílias e comunidades.  
Um conceito fundamental que subjaz a este modelo de aprendizagem é, portanto, o de “co-construção” — as relações interativas de suporte mútuo que ajudam os alunos a progredir em direção aos seus objetivos. Neste contexto, todos devemos considerar-nos aprendentes, não apenas os alunos, mas também os professores, as escolas, os decisores políticos, as famílias e as comunidades. Se a aprendizagem está no centro, é crítico o desenvolvimento de comunidades de aprendizagem."

Dos Castelos em Espanha do meu Pai ao meu País dos Sonhos Azuis


"Des Chateaux en Espagne de mon Père à mon Pays des Rêves Bleuscooperativa aldoa5r
 é o título do último livro de Manuel Paiva (na imagem), professor de Física emérito da Universidade Livre de Bruxelas, que passa parte do seu tempo nos Estorninhos, uma aldeia da Serra Algarvia, com uma vista para o mar que está retratada na capa.  O livro, pequeno (83 páginas) e em edição de autor  (Tipografia Tavirense, Outubro de 2017), não tem ISBN. Julgo que o autor só o fez para o distribuir a família e amigos, embora saiba que está em preparação uma edição em português.

Trata-se de um livro de memórias, largamente auto-biográfico, mas que cruza os temas da vida familiar do autor com  informações muito interessantes sobre o espaço e a descoberta espacial (designadamente sobre as novidades na exploração de Marte, de cometas, de Saturno e suas luas, e de planetas extraterrestres), assuntos em que Manuel Paiva se tornou especialista e nos quais é excelente divulgador. "Construir castelos em Espanha" é uma expressão francesa que significa "fazer projectos irrealizáveis",  "ter esperanças quiméricas".  A expressão resume os vários negócios e ideias de negócio do pai do autor, comerciante do Porto em vários ramos, que aparece num retrato antigo na contracapa ao lado da mãe.  Por outro lado, o país dos sonhos azuis é Portugal (o céu azul do Algarve enche a capa), mas remete também para o imaginário infantil, pois nas histórias de Winnie the Pooh (o Ursinho Pooh) que os netos de Manuel Paiva tanto apreciam existe uma floresta dos sonhos azuis. O livro cobre, portanto, o arco familiar, que vai da recordação mais antiga do pai, a montar a cavalo na Cooperativa da Freguesia de Aldoar, Porto, até à família internacional contemporânea, pois Manuel emigrou nos anos 60 para a Bélgica onde casou com uma professora de Física de origem russa e criou a sua família.

A referida cooperativa tem raízes familiares pois foi fundada por um tio-avô do autor (do ramo da mãe, um político do tempo republicano, anticlerical e maçon como se usava na época), numa casa dos seus antepassados, em frente da sua casa de infância, na Rua da Vilarinha. O pai vem de uma família de comerciantes conservadores, tendo casado em 1930. Manuel Paiva nasceu em 1943, quando o pai era chefe de contabilidade da Casa Ferreirinha do Porto. É um pouco da história de Portugal no tempo do Estado Novo que o livro trata, vista por um prisma familiar, incidindo particularmente  sobre a pequena burguesia do Porto. Durante a Segunda Guerra Mundial  o pai deixou a casa de vinho do Porto onde trabalhava, onde podia ter ficado até uma tranquila reforma, para criar uma empresa que produzia embalagens para o vinho do Porto. Mas o negócio faliu, como haveriam de falir vários outros negócios em que se meteu, praticamente todos. Haveria de ser sócio num negócio de tinturaria, que lhe correu mal por ter sido enganado por outro sócio. Haveria de ser proprietário do Aviário da Vilarinha nos anos 50, que seria aproveitado mais tarde, falhada a criação de frangos, para criar coelhos e chinchilas, o que também falhou. Entrou na pequena política ao tornar-se presidente da Junta de Freguesia de Aldoar, lugar do qual de demitiu. Tentou,  sem sucesso, contsruir uma máquina de palitos de dentes. Criou uma firma de "import-export", que importou a cerveja Carlsberg mas que não conseguiu  exportar botões de uma fábrica local. As ideias do pai Paiva  eram, por vezes, mirabolantes: quis, por exemplo, que o filho seguisse Engenharia Química para fazer comprimidos de vinho do Porto destinados à exportação para Japão. Mas o filho inscreveu-se antes em Engenharia Electrotécnica na Universidade do Porto, curso que não completaria por entretanto ter ido para a Bélgica estudar Física (o que não o impediu de mais tarde ser membro convidado do Conselho Geral da Universidade do Porto).  Pegando numa ideia lida num jornal belga por ocasião do casamento do filho, o pai tentou criar uma agência matrimonial em Portugal, o que foi mais um empreendimento mal sucedido.... Manuel Paiva esteve largos anos sem vir a Portugal nos últimos anos do Estado Novo, mas voltou com a esposa em 1973 quando já era cidadão belga e portanto não podia ter problemas com o serviço militar português. O pai ensaiou na época criar uma instalação de energia solar, mas o filho, de posse de conhecimentos de física, fê-lo descer a terra. O pai não desistiu do seu espírito inventivo:  lembrou-se de construir uma turbina  eólica  de eixo vertical... Confidenciou ao filho a certa altura que gostaria que ele dissesse que o pai tinha imaginação, frase com a qual o filho não teve qualquer relutância em concordar. O pai tinha uma imaginação transbordante. Mais tarde, inventaria um jogo parecido com o "scrabble", que chegou a propor, mais uma vez sem sucesso, à televisão portuguesa. Nos últimos dias da sua vida escreveu artigos anti-religiosos e propôs-se mesmo fazer uma associação de ateus, para a qual chegoua redigir um manifesto. Ainda escreveu um livro sobre Fátima, que nunca chegou a sair. Em 1999, morreu no sono, como  desejava, depois de ter escrito as suas últimas vontades. Paiva fala neste seu livro com carinho da sua família: fala mais do pai do que da mãe, mas deixou linhas muito calorosas sobre a mãe, que o aconselhou sempre a deixar o pai ocupado com as suas lucubrações.

Este livro, muito curioso e muito agradável de ler, junta-se a outros do mesmo autor, que têm circulação bem menos restrita e que, nalguns casos também têm aspectos auto-biográficos:  "Diálogos sobre Portugal", com Mariana Pereira, Livros & Leituras, 1998, com tradução saída em Bruxelas prefaciada por Hubert Reeves; "Como respiram os astronautas", que é o volume 136 da colecção Ciência Aberta da Gradiva, 2004, reeditado mais tarde com algumas mudanças na mesma colecção; "Descobre o Céu", um livro de ciência infantil, com Constança Providência, Nuno Crato e eu próprio, Bizâncio, 2005; "À espera de Godinho", com Amadeu Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa e José Morais, Bizâncio, 2008; e, "Portugal e o Espaço", volume 59 dos ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016. O autor escreve com fluência, num estilo bastante vivo e atraente, por vezes com fina ironia. Vê o país à distância muito melhor do que muitos vêem ao perto. Este é um depoimento muito humano que aproveita para divulgar a ciência (em capítulos que aqui não resumi) ao mesmo tempo que apresenta a extraordinária vida da sua família, centrada na figura do seu pai.

"ESPAÇO PARA ALGUNS"


Encontrei o livro numa feira de velharias a um euro. Comprei-o não apenas pelo preço mas também e sobretudo pelo título, bem achado. Aberto o livro logo percebi que era uma peça de teatro de ficção científica de uma autora nacional, Maria da Graça de Athayde (1906-2001), dada à estampa, nas Edições Panorama, do SNI (a agência de propaganda do regime anterior), em 1962. Foi o primeiro livro da autora, publicado por ter ganho o prémio "Originais manuscritos de teatro" do SNI de 1961, mas ela haveria de publicar outros. Não conhecia o nome da autora, mas, pesquisando na internet, encontrei no mercado normal uma única obra, "Três mistérios" (Sopa de Letras), embora também estivesse noticiada a republicação em Ponta Delgada (a autora é açoriana) das duas memórias em três volumes, intituladas "Uma vida qualquer", com prefácio de Guilherme de Oliveira Martins, que parece ser um documento precioso para se conhecer a vida lusitana nos tempos do Estado Novo. A mãe da autora, Maria Emília Brum do Canto Hintze Ribeiro, era bisneta de José do Canto (estudado por Maria Filomena Mónica) e sobrinha neta do Conselheiro Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, que foi ministro nos últimos anos da monarquia. Um filho foi membro do governo de Marcello Caetano. Um seu neto preside hoje à Ordem de Malta.

 Passado algures no século XXI, o enredo de "Espaço para Alguns" conta os preparativos de uma viagem à Lua, o primeiro voo comercial ao nosso satélite, depois de alguns voos pioneiros. Lembro que terá sido escrita no início da era espacial pouco antes do presidente John Kennedy ter anunciado que os americanos haveriam de ir à Lua ainda na década de 60 (12 de Setembro de 1962 num estádio do Texas). O 1.º acto passa-se numa "noite do futuro, no último andar de uma casa do futuro". A circunstância é a festa dos cem anos de um senhor, António Vasconcelos de seu nome, já com bisnetos, que vai viajar para a Lua. O jantar de anos é português à moda antiga, sem "as "facilidades enlatadas, comprimidas, enriquecidas de vitaminas e coisas sintéticas" que nesse futuro imaginado se usavam: Era um "jantar honesto", com canja tradicional, arroz de pato, peru recheado, porco assado e, à sobremesa, o "imprescindível leite creme".  O neto Salvador, de 37 anos, comenta que nunca na sua vida tinha visto nada disso, habituado que está a refeições de comprimidos.   A reunião familiar é uma festa de despedida do velho, que é um visionário, e quer ir para a Lua. Pede, em discurso, para ser recordado como um avô "cheio de sonhos irrealizáveis, transbordante de utopias! Era aquele velhinho centenário que antes de partir para a Lua já lá estava". Claro que a acção, recheada de peripécias sentimentais, é um bastante "naif", mas serve para ver como na altura se imaginava o futuro. Havia um regime capitalista semelhante ao do tempo da autora que lançava "impostos de emergência" mas era maior o papel da mulher: os diplomatas eram equipas de um homem e uma mulher. O 2.º acto passa-se numa repatição do Ministério do Espaço.  Denotando um certo feminismo da autora, surge uma senhora engenheira, Stella Margarida d'Alte, que ajudou a construir a nave espacial e que foi sorteada para, em nome da equipa construtora, viajar. Stella tem 30 anos, é "bonita e desempenada", mas veste com severidade".  Stella reencontra aí Salvador, que  conhecia da infância. É um reencontro romântico, e ("spoiler alert") no final a engenheira acaba por ficar na Terra, acompanhada pelo seu "salvador" (a engenheira é substituída pelo primeiro suplente, o "José Ninguém"). O 4.º acto passa-se numa "aerogare do futuro",  um aeroporto espacial que imita um aeroporto dos anos 60. A bordo, além do velho, acabam por partir um industrial, Samuel Dourado, que subsidiou o projecto, uma corista. Luna Violante,  que lhe fazia companhia que, trocando as voltas ao seu par, se apaixona por um outro passageiro bem-falante, o Tristão Félix (vagabundo, com formação em filosofia) e o Padre Mateus Homem. Há aqui alguma crítica social, ou melhor de costumes. Aparece também um representante do governo que vem apresentar cumprimentos de despedida.  A nave parte. A última fala é a de Stella, que se sente salva na Terra: "Leva-me para os teus dias, Salvador..."

Trata-se, portanto, um enredo romântico com um fundo futurista. Não foi uma obra literária durável. Trago-o aqui porque, estando esquecido nos alfarrabistas, e não sendo muito rica a ficção científica portuguesa, este será um dos textos pioneiros de ficção científica teatral em português, pelo menos, sobre temas do espaço.  Ingénua, mas é uma peça engraçada.